Napoleão Bonaparte, uma das figuras mais enigmáticas e estudadas da história moderna, foi um estrategista militar, imperador e símbolo de poder que fascinou o mundo por mais de dois séculos. Sua trajetória, que vai das batalhas épicas da Europa às sombras isoladas da Ilha de Santa Helena, sempre gerou debates intensos entre historiadores.
Entre as muitas teorias que cercam sua morte, em 5 de maio de 1821, uma delas chama atenção por unir ciência, hábitos pessoais e luxo: a ideia de que o perfume que o acompanhou por décadas tanto o protegeu quanto pode ter contribuído para seu fim.
Napoleão morreu aos 51 anos, após um longo período de deterioração física durante o exílio imposto pelos britânicos. Tradicionalmente, a causa de sua morte foi atribuída a um câncer de estômago, mas estudos recentes levantaram hipóteses alternativas. Entre elas, a de que o uso extremo e contínuo de água-de-colônia — em uma época em que fragrâncias tinham fórmulas muito mais concentradas — pode ter causado danos severos ao organismo do imperador.
Nas guerras, o álcool do perfume agia como um potente antisséptico, blindando Napoleão contra infecções.
Napoleão tinha uma relação quase compulsiva com o perfume. Relatos de seus contemporâneos indicam que ele jamais se separava da água-de-colônia, usando-a não apenas como fragrância, mas como parte essencial de sua rotina. Durante campanhas militares e no confinamento em Santa Helena, o hábito se manteve firme. Estima-se que ele utilizasse quantidades hoje impensáveis: vários frascos por dia, esfregando a colônia no corpo, no couro cabeludo e nos lenços.
Há relatos, inclusive, de que ele chegava a ingerir a solução sobre cubos de açúcar. Em um período em que banhos frequentes eram raros, o perfume assumia uma função prática de higiene e frescor.
No final do século XVIII, a água-de-colônia era vista muito além da vaidade. Rica em álcool e óleos essenciais, era considerada um agente antisséptico eficaz (“Aqua Mirabilis”). Do ponto de vista científico moderno, esse hábito fazia sentido: a alta concentração alcoólica da fórmula agia como proteção contra vírus e bactérias. Para Napoleão, o uso intenso funcionava, ainda que sem saber, como um escudo real contra infecções durante as campanhas militares, além de oferecer conforto psicológico em meio ao caos.
O uso obsessivo de vários frascos diariamente pode ter causado uma intoxicação lenta e silenciosa.
O problema, segundo pesquisadores modernos, está no uso prolongado. As fragrâncias do século XIX tinham concentrações elevadas de óleos essenciais que, em excesso, podem atuar como disruptores endócrinos. A hipótese sugere que Napoleão sofreu uma intoxicação crônica. O contato constante, a inalação e a possível ingestão teriam criado um desequilíbrio hormonal severo. Isso explicaria, por exemplo, a ginecomastia (aumento das mamas) e a falta de pelos corporais observadas na autópsia do imperador, além de agravar a inflamação gástrica que o matou.
Apesar da teoria do perfume, a explicação mais aceita continua sendo o câncer de estômago, confirmado pela autópsia que descreveu lesões compatíveis com a doença — mal que vitimou também seu pai. A teoria do arsênico, baseada em análises de cabelo, perdeu força ao se constatar que a substância era onipresente em materiais da época, como papéis de parede.
Hoje, historiadores consideram que a morte de Napoleão foi resultado de uma “tempestade perfeita”: predisposição genética ao câncer, ambiente tóxico do exílio, estresse e hábitos extremos — onde o abuso da água-de-colônia pode ter sido o golpe de misericórdia.



