Anticoncepcional masculino: elas querem dividir a responsa da contracepção

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Aqui está um achado do qual homens e mulheres pouco falam: os anticoncepcionais masculinos! Confesso que me assustei com a quantidade de métodos contraceptivos, pílulas e fórmulas que já se têm notícias para homens, mas que pouco recebem atenção e até mesmo patrocínio para suas pesquisas.

Eu, como parte interessada nessa descoberta, pouco sabia que tais técnicas existissem. E me questionei: o que acontece em nossa sociedade que ainda atribuímos às mulheres o cuidado e controle da prole? Talvez para formular tais respostas precise da ajuda de vocês, leitores.

Apresento o culpado de toda minha inquietação: o Vasalgel – contraceptivo injetável que, segundo a Parsemus Fountadion, organização norte-americana que trabalha na produção do produto, em uma única aplicação não hormonal, reversível, funciona por até 10 anos. Se o homem decidir virar pai, basta uma injeção de bicarbonato de sódio (feita em laboratório) para dissolver o gel e os espermatozoides voltarem a seguir o seu caminho.

A título de curiosidade, e sei que estão após lerem a informação de que “os espermatozoides voltam a circular” (eles param?), falarei brevemente sobre como este método funciona.

O médico injeta uma gota do gel contraceptivo no canal deferente (o tubo que transporta o esperma), localizado abaixo da pele de cada testículo, após anestesia, que bloqueia a passagem do esperma. Quando decidido a respeito da paternagem, basta apenas reverter a “barreira” para retornar a fluidez dos amigos com cauda.

E então minha indignação feminina: porque tais descobertas são pouquíssimo divulgadas? Será apenas interesse político, ou há rejeição dos homens para uso de tal medicação?

A desculpa política vem do dinheiro: por ser um procedimento rápido e barato (uma injeção custaria muito menos do que um DIU de US$ 800), o Vasalgel não atrai os olhares da indústria farmacêutica. Ok!

Mas e a desculpa de vocês, homens?

Elas querem que a gente ajude a evitar essa cena

Aos homens, historicamente, atribuiu-se o papel de “bom provedor” como elemento distintivo da masculinidade. A fantasia do que os torna masculino engloba: proteger a família, prover bom filhos, estar prontamente atento aos desejos sexuais de sua parceira, ser forte, inteligente, decidido, sedutor – em miúdos, ter um falo bastante potente. Atribuições que por vezes atrapalham a reflexão sobre a participação do homem na contracepção da vida sexual a dois, e que impedem a ressonância de ideias importantes como a do Vasalgel.

O fantasma ressurge no medo da castração, de perder a ereção, o desejo sexual, a potência de fazer filhos e se fazer autoridade familiar. O bloqueio dos espermatozoides, para muitos homens, incitaria a perda de sua masculinidade, e não apenas de sua capacidade temporária para fecundação. Um medo primitivo, herança do tão conhecido Complexo de Édipo, e que ainda hoje rege questões humanas, sociais e políticas.

A ideia da contracepção masculina é importantíssima para reforçar a necessidade da divisão de responsabilidade entre homens e mulheres na hora do sexo, evitar a gravidez na adolescência e a diminuição no número de mulheres se arriscando em clínicas clandestinas por conta da gravidez indesejada. Além disso, as mulheres sentir-se-iam mais seguras na hora H, e não precisariam mais se entupir de hormônios.

O modelo do macho-provedor está em transformação, o que vem acarretando aos homens várias dificuldades para se autoposicionarem quanto aos seus papéis de gênero. Mesmo que haja, na vida cotidiana, uma divisão entre o casal das tarefas domésticas e da responsabilidade financeira, os homens continuam a sentir-se responsáveis pela manutenção da autoridade moral familiar.

A um pênis não devem ser atribuídos tantos mitos, fantasias, capacidades que não a mais importante: fecundar.

Usar a contracepção não torna a mulher menos feminina. Ouso dizer o contrário: seguras, elas permitem a exploração, experimentação e liberdade sexual. A camisinha, o DIU, a pílula permitiram aos homens e, principalmente, às mulheres, extraírem do sexo apenas o prazer, deixando a gravidez para um segundo plano.

E por que não este controle da natalidade agora dividido entre dois, que justamente é o número daqueles que pertencem a essa relação?

Então, vai experimentar?

Esse é o sonho de muito casal, mas no momento certo

Patrícia Vaz

Psicanalista, Patrícia adora escrever sobre as angústias de ser humano, e concorda com Freud que "um charuto às vezes é só um charuto" -- ou não? Para saber mais acesse www.patriciavazcorrea.com

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