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Ela diz que te ama, mas na verdade ama a si mesma

Thiago Sievers
Thiago Sievers Head de Parcerias

Declarações de amor são tão fáceis de fazer… Você não precisa ser um artista para isso. A paixão é capaz de transformar qualquer dizer chinfrim em composição de rara qualidade. Um simples “eu te amo” ganha traços shakespearianos a ouvidos apaixonados.

O problema é que nem sempre as palavras caminham ao lado das emoções.

Sinto que temos uma facilidade enorme em confundir o sentimento de amor. Tudo bem que definir amor é tarefa impossível — mas traçar alguns limites, usando o bom senso, é tarefa válida.

O amor não é o desejo profundo de ter a pessoa do lado. Isso é paixão. E a paixão é como uma droga — ela inebria e gera abstinência.

Apesar de ser disparada por um sentimento em relação a alguém, a paixão, na verdade, é egoísta: a companhia, a atenção, o beijo, o sexo da pessoa traz-nos uma experiência interna empolgante, jubilosa! E a paixão só é atendida quando o outro realiza as expectativas que ela necessita.

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Quando isso não acontece, o jogo vira e dá vazão a sentimentos de revolta, como ciúmes, inveja, raiva, rancor… vixi, a lista é extensa! (E você sabe disso, vai.)

Então podemos concluir que a pessoa pela qual estamos apaixonados é, em essência, uma ferramenta para experimentarmos sentimentos extasiantes. Puro egoísmo.

Mas isso não é um problema necessariamente — se torna um problema quando não há amor.

O amor é sentimento nobre, que exige renúncia. Aqui, pensa-se no outro e não apenas em si.

O desejo intenso de ter a pessoa ao lado acalma-se por compreender que naquela noite ela não pode; a vontade louca de fazer sexo tranquiliza-se ao perceber que ela não está afim naquela hora.

No amor há espaço para frustrações. Na paixão não.

Ela diz que te ama, mas não compreende sua necessidade de ficar sozinho; mas exige que você corte o cabelo porque já está muito grande; mas quer ficar a noite inteira no telefone mesmo que você tenha que acordar 5:30 na manhã seguinte? Ops…

A real é que ela ama a si mesma. Ela quer satisfazer suas vontades próprias e não está muito interessada na sua pessoa para além do prazer que você pode lhe proporcionar.

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Parece duro demais jogar as palavras assim, irresponsavelmente, sem aviso prévio de conteúdo temerário, desnudando a realidade. Mas é o que é. Não é?

Vamos convidar Clarice Lispector a expressar-se sobre o assunto:

“Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria – e não o que é. É porque ainda sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele. É também porque me ofendo à toa. É porque talvez eu precise que me digam com brutalidade, pois sou muito teimosa.”

O trecho foi retirado do livro Felicidade Clandestina e penso que coroa a reflexão como eu jamais poderia fazer. E se você quiser levar apenas uma frase desse texto, que seja essa:

“É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria – e não o que é.”

Sem mais, portanto.