A grandeza moral dos alemães diante da vitória sobre o Brasil

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A verdadeira elegância moral consiste na arte de disfarçar as vitórias como derrotas, escreveu o filósofo E.M. Cioran, aforista notável.

O sujeito que não sabe perder é quase tão patético quanto o mau ganhador. No caso dos jogadores alemães, estamos tendo algumas demonstrações de civilidade desde o momento em que eles pisaram no Brasil para a Copa.

Ficaram famosos os vídeos que fizeram. Num deles, aparecem cantando com índios pataxós no aniversário de Klose. Em outro, Schweinsteiger e Neuer vestem a camisa do Bahia, se juntam a torcedores e passam a entoar o grito de guerra “Baêa! Baêa! Baêa!”

Há poucos dias, gravaram um clipe cuja trilha era o axé “Luz de Tieta”, de Caetano Veloso (que contém os piores versos da história da música popular mundial, rimando “eta” com “tieta”, mas isso não vem ao caso agora).

E finalmente, depois de massacrar o Brasil por 7 a 1, um feito que provavelmente não se repetirá nos próximos 200 anos entre duas seleções dessa estirpe, os homens de Joachim Löw foram grandes.

Özil, o canhoto que deu um lindo passe de direita para o último gol, foi sucinto: “Vocês têm um país maravilhoso, um povo fantástico e jogadores incríveis – esse jogo não pode destruir seu orgulho!”

Mas coube a Lukas Podolskig uma declaração gentil, uma bonita consolação. Podolski publicou o seguinte nas redes sociais (eu mantive a grafia):

“Respeite a AMARELINHA com sua história e tradição, o mundo do futebol deve muito ao futebol brasileiro, que é e sempre será o país do futebol.

A vitória é consequência do trabalho, viemos determinados, todos nós crescemos vendo o Brasil jogar, nossos herois que nos inspiraram são todos daqui.

Brigas nas ruas, confusões, protestos não irão resolver ou mudar nada, quando a Copa acabar e nós formos embora, tudo voltará ao normal então muita paz e amor para esse povo maravilhoso, um povo humilde, batalhador e honesto um país que eu aprendi a amar”.

É pouco provável que seja jogo de cena, cálculo, marketing calhorda, e Podolski esteja, na verdade, enchendo a cara de cachaça com os colegas e umas amigas, atirando dardos numa foto de Felipão. O Brasil é bacana e os recebeu bem.

É um grupo determinado, que faz questão de transmitir alegria (lembre-se da neurose taxista da “Família Scolari”, sempre às voltas com um chilique). O zagueiro Hummels afirmou ao Mirror que houve um pacto no vestiário, durante o intervalo, para que não houvesse “humilhação” do adversário.

A torcida brasileira para a Alemanha, na final contra a Argentina, deverá ser enorme, não necessariamente pelos motivos mais nobres. De qualquer maneira, será merecida.

Kiko Nogueira

Kiko Nogueira é editor do Diário do Centro do Mundo. Ele foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.

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