Cultura Olfativa

O fenômeno dos perfumes árabes: por que eles conquistaram o Brasil?

Compartilhe

O mercado de fragrâncias no Brasil sempre foi um gigante global — o país figura entre os maiores consumidores de perfumes do mundo e ocupa uma posição única graças ao amor dos brasileiros por fragrâncias marcantes e à cultura do perfume como expressão pessoal.

Nos últimos anos, contudo, um segmento que até recentemente era considerado de nicho explodiu em popularidade: os perfumes árabes. O interesse passou de um público especializado para um fenômeno mainstream que movimenta milhões e transforma o jeito como muitos brasileiros encaram o perfume.

Tradição e intensidade

A perfumaria árabe tem raízes que remontam a séculos no Oriente Médio, uma região onde fragrâncias sempre foram parte fundamental da cultura, dos rituais e da identidade social. Essa tradição rica se traduz em perfumes com composições que valorizam notas intensas, como o oud, o âmbar, o incenso e as especiarias, além de uma fixação que muitas vezes supera o padrão da perfumaria ocidental.

No Brasil, esse perfil olfativo encontrou um terreno extremamente fértil. Diferentemente de mercados onde fragrâncias discretas dominam, o consumidor brasileiro tende a apreciar perfumes marcantes, que deixam rastro e permanecem por horas na pele. Essa afinidade ajudou a transformar o perfume árabe de produto exótico em objeto de desejo.

O crescimento do segmento não é apenas perceptível — ele é mensurável. Em um intervalo de poucos anos, as vendas de perfumes árabes no Brasil dispararam, com taxas de crescimento que chamaram a atenção de importadores, varejistas e grandes players do mercado de beleza.

Paralelamente, o interesse digital acompanhou essa escalada. Buscas por termos relacionados a perfumes árabes cresceram de forma consistente, e o Brasil passou a figurar entre os países mais engajados no tema em plataformas digitais.

Grande parte desse impulso veio das redes sociais. Influenciadores, criadores de conteúdo e entusiastas da perfumaria passaram a compartilhar experiências, comparações e impressões sobre fragrâncias árabes, criando um ciclo de desejo coletivo que acelerou a popularização do segmento.

O poder da estética na experiência

Além do cheiro, a estética tem um papel central no sucesso dos perfumes árabes. Os frascos costumam chamar atenção imediatamente, com design inspirado na joalheria oriental, uso de dourado, arabescos, relevos e formatos robustos que remetem a luxo e tradição.

Para o consumidor brasileiro, que enxerga o perfume também como parte da imagem pessoal, o frasco funciona como um elemento de status e estilo. Não é raro que essas embalagens se tornem itens de destaque na decoração de penteadeiras e closets, reforçando o valor simbólico do produto.

O avanço dos perfumes árabes no Brasil também pode ser percebido nas histórias do varejo. Importadores que antes trabalhavam com volumes modestos hoje ampliaram drasticamente seus pedidos, impulsionados por uma demanda constante e por consumidores que retornam para recomprar.

Em grandes centros urbanos, lojas especializadas se transformaram em verdadeiros pontos de encontro para apaixonados por fragrâncias intensas. Muitos desses espaços oferecem experiências guiadas, explicando matérias-primas, pirâmides olfativas e a história por trás de cada perfume, o que fortalece ainda mais o vínculo com o consumidor.

Inspiração em perfumes famosos

Um capítulo à parte no sucesso da perfumaria árabe no Brasil é a habilidade de muitas casas em criar “inspirados” de altíssima qualidade. Conhecidos popularmente na comunidade como “clones” ou “dupes”, essas fragrâncias oferecem alternativas acessíveis a rótulos icônicos da perfumaria de nicho e designer mundial.

Essa estratégia se provou fundamental para a expansão do segmento. Muitas marcas árabes conseguem entregar perfumes incríveis, com desempenho surpreendente e similaridade notável aos originais, mas por uma fração do preço. Para o consumidor brasileiro, isso representa a democratização do acesso a perfis olfativos sofisticados, permitindo experimentar o que antes era restrito a um mercado de luxo inacessível para a maioria.

Pedro Nogueira

Fundador e editor-chefe do "El Hombre" e do "Moda Masculina".