O mundo da perfumaria é cheio de códigos que passam despercebidos por muita gente. Expressões como Eau de Toilette (EDT), Eau de Parfum (EDP), Eau de Cologne (EDC) e Extrait de Parfum aparecem nos frascos, mas raramente são explicadas com clareza. Mais do que nomes sofisticados em francês, essas denominações definem a concentração da fragrância pura, influenciando o quanto um perfume vai durar na pele, a intensidade do aroma e até a forma como ele evolui ao longo do dia. Entender essas diferenças muda completamente a maneira de escolher e usar uma fragrância.
Além do concentrado aromático, existe outro elemento fundamental na construção de qualquer perfume: a base líquida que carrega essas essências, formada principalmente por álcool e água. Essa combinação não está ali por acaso. O álcool funciona como um veículo que dissolve as matérias-primas aromáticas e permite que o perfume seja borrifado de maneira uniforme sobre a pele.
É o álcool que também explica por que o perfume “abre” logo após a aplicação. Ele evapora rapidamente, liberando as notas de saída quase instantaneamente. Quanto maior a proporção de álcool na fórmula — como acontece na colônia e no EDT — mais rápida tende a ser essa abertura e mais fresca é a primeira impressão do perfume.
A água entra para equilibrar essa evaporação e suavizar o contato com a pele. Em concentrações mais altas, como no EDP e principalmente no Extrait, há menos álcool em relação à essência, o que faz com que a fragrância evapore de forma mais lenta e controlada. É por isso que perfumes mais concentrados costumam ter evolução mais profunda, sensação mais “oleosa” ao toque e maior fixação, revelando as notas de fundo com muito mais destaque ao longo das horas.
Segundo a International Fragrance Association (IFRA), as concentrações são as seguintes:
- Eau de Cologne (EDC): 5% em média (pode variar de 3% a 8%)
- Eau de Toilette (EDT): 10% em média (5% a 15%)
- Eau de Parfum (EDP): 15% em média (10% a 20%)
- Extrait de Parfum: 20% em média (15% a 40%)
Colônia (3-8%)
A colônia, também chamada de Eau de Cologne, é a forma mais clássica e leve da perfumaria. Sua origem está ligada a fórmulas cítricas e aromáticas criadas para refrescar o corpo, especialmente após o banho ou o barbear.
Com baixa concentração de essência, a colônia entrega uma sensação imediata de limpeza e frescor, mas sua duração é curta. Isso nunca foi um problema, já que a proposta sempre foi o uso abundante e a reaplicação frequente.
Até hoje, muitas colônias mantêm esse espírito revigorante. Elas são ideais para dias muito quentes, momentos casuais ou para quem não quer deixar um rastro olfativo evidente.
Eau de Toilette (5–15%)
O Eau de Toilette (EDT) é uma das formas mais populares da perfumaria moderna. Ele possui uma concentração intermediária-baixa de óleos aromáticos, o que resulta em fragrâncias mais leves e frescas. Por isso, é comum que seja a escolha padrão para perfumes de uso diário.
Essa leveza faz com que o EDT destaque principalmente as notas de saída, aquelas percebidas logo após a aplicação. Cítricos, ervas aromáticas e acordes aquáticos aparecem com mais brilho, criando uma sensação imediata de frescor.
Outro ponto pouco comentado é que o EDT costuma se projetar mais nos primeiros minutos, chamando atenção logo de início, mas tende a desaparecer mais rápido. É uma escolha inteligente para quem prefere reaplicar o perfume ao longo do dia ou não quer um aroma dominante.
Eau de Parfum (10–20%)
O Eau de Parfum, ou EDP, sobe um degrau na escala de concentração. Ele carrega mais essência aromática na fórmula, o que se traduz em maior fixação e presença na pele. Não à toa, muita gente associa o EDP a perfumes mais marcantes.
Nesse tipo de fragrância, as notas de coração e de fundo ganham protagonismo. Madeiras, resinas, especiarias e flores mais densas aparecem com mais clareza e permanecem por horas, evoluindo lentamente.
Um detalhe interessante é que, apesar de mais intenso, o EDP nem sempre projeta mais do que o EDT. Em muitos casos, ele fica mais próximo da pele, criando uma aura elegante e envolvente, algo bastante valorizado em perfumes sofisticados.
Extrait de Parfum (15–40%)
No topo da perfumaria está o extrait de parfum, também conhecido como extrato de perfume. Essa é a forma mais concentrada de uma fragrância, com altíssima proporção de óleos aromáticos.
O resultado é um perfume extremamente duradouro, que se desenvolve lentamente na pele e revela nuances que outras concentrações não conseguem mostrar. Muitas vezes, basta uma pequena aplicação para que o aroma permaneça o dia inteiro.
Extraits costumam ser associados ao luxo não apenas pela intensidade, mas também pela qualidade das matérias-primas e pelo cuidado na formulação. É uma escolha comum entre colecionadores e apreciadores mais exigentes.
PS: A concentração orienta, mas não define o perfume
Eau de Cologne (EdC), Eau de Toilette (EdT), Eau de Parfum (EdP) e Extrait não são categorias definidas por regras técnicas rígidas ou por uma porcentagem fixa de essência. Esses termos funcionam como orientações gerais de estilo e comportamento do perfume na pele, e não como normas absolutas.
Na prática, a concentração ajuda a indicar a intenção do produto — mais fresco e volátil no caso da EdC, mais equilibrado na EdT, mais encorpado na EdP e mais denso no Extrait —, mas não determina sozinha nem a intensidade, nem a projeção, nem a fixação.
Dois perfumes com a mesma porcentagem podem se comportar de formas completamente diferentes, dependendo da estrutura da fórmula, do tipo de matérias-primas utilizadas, da proporção de álcool e solventes e da arquitetura olfativa pensada pelo perfumista.
Por isso, uma EdT mais concentrada pode se sobrepor a uma EdP mais leve, e um Extrait não precisa ser necessariamente explosivo para ser mais intenso. Os nomes indicam uma direção, uma expectativa de uso e sensação, mas não funcionam como regras fixas ou garantias de desempenho.



