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Sá Rodrix e Guarabyra
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Sá, Rodrix, Guarabyra e o rock rural | Clássicos ELH #020

Thiago Sievers
Thiago Sievers Head de Parcerias

O texto “Sá, Rodrix, Guarabyra e o rock rural” foi publicado originalmente em outubro/2012; veja aqui mais artigos da série “Clássicos ELH”, uma coletânea de textos atemporais em comemoração ao aniversário de 10 anos do El Hombre.

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O ano era 1990. Luiz Carlos Sá e Guttemberg Guarabyra lançavam o LP Vamos Por Aí, que trazia em sua primeira faixa a música Ziriguidum Tchan. Nela os autores questionam o consumo da cultura americana pelos brasileiros. Isso, por si só, não seria um problema – mas passa a se tornar quando a cultura deles começa a atropelar a nossa. “Nova York é mais perto que o sertão”, diz a dupla. E eles não estão se referindo à Nova Iorque maranhense.

(Uma curiosidade. Em 1990 a cidade de Nova Iorque aportuguesou o nome que antes era grafado da mesma forma que o da metrópole americana. Será coincidência esse fato ter ocorrido no mesmo ano do lançamento de Ziriguidum Tchan?)

Esse tipo de questionamento não é novidade, mas deve ser repensado constantemente. Vivemos num país de cultura vasta, vastíssima (principalmente em aspectos musicais), e pouco conhecemos sobre tamanha diversidade. Costumamos nos envolver com os hábitos americanos sem nem mesmo percebermos que isso está acontecendo, tamanha a naturalidade com que isso ocorre. A lista de exemplos é tão extensa e tão conhecida que eu vou me abster de citar alguns.

Os caras estavam certos: Nova York é mesmo mais perto do que o sertão. Não verifiquei dados, mas não tenho dúvidas de que o hip hop – que tem origem americana – é mais conhecido e difundido no Brasil do que o rock rural, gênero que imortalizou a dupla. A impressão que nos dá é justamente a de que os EUA está logo ali, enquanto que o sertão mal se pode enxergar.

Foi com a música Casa no Campo (Zé Rodrix e Tavito, 1971) que surgiu o termo “rock rural”. Nascido no conturbado ambiente político da ditadura militar, esse gênero se entrelaçou com o tropicalismo no final da década de 60 e início de 70 para servir de voz à indisposição social dos artistas – voz essa calada com força política (ou bruta) inúmeras vezes – e dar origem à “música de protesto”. Segundo o próprio Luiz Carlos Sá, num texto publicado pela revista USP, o maior desconforto da juventude naquela época foi com a forte industrialização que estava alcançando o país e com o esforço que as lideranças políticas faziam para afirmar o Brasil como progressista. É justamente esse panorama que Sá e Guarabyra pintam com maestria em Ziriguidum Tchan.

Os dois iniciaram a carreira em 1972, em companhia do já citado Zé Rodrix, e foram os primeiros artistas a colocarem em evidência o rock rural. Rodrix é de fundamental importância na obra de Sá e Guarabyra. Os aspectos sonoros e conceituais do trabalho da dupla (que nessa altura era trio) tiveram muita influência dos artistas que eram a maior referência deles no exterior: Crosby, Still and Nash. (Americanos, por sinal). Zé Rodrix acompanhou os dois nos primeiros álbuns (Passado, Presente e Futuro, de 1972, e Terra, de 1973) e em outros dois bem mais recentes (Outra vez na Estrada, de 2001, e Amanhã, de 2010).

O consumo em massa da cultura americana não era a única situação exposta pelos artistas em suas obras. Em “Sobradinho”, um de seus grandes sucessos, eles demonstram preocupação com o que o processo de industrialização poderia causar na natureza. “O homem chega e já desfaz a natureza, tira gente põe represa, diz que tudo vai mudar”, diziam eles muito antes dos embates sobre Belo Monte.

A proatividade de Sá, Guarabyra e de todos os artistas que participaram do movimento musical daquela época se transformou na marca de uma geração. E se não bastasse isso, ainda tem a questão da qualidade musical – maravilhosa.

O trabalho de Sá e Guarabyra é daquelas que inspiram transparência. É original. É consciente. É do sertão. Só não é do mainstream, como Nova York.

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