“Coringa”: o filme que mudará o gênero de super-heróis no cinema?

O aguardadíssimo filme do “Coringa”, que venceu o “Leão de Ouro” no Festival de Veneza 2019 , principal prêmio da noite, finalmente chegou aos cinemas para matar a curiosidade de todos.

Estrelado pelo ator Joaquin Phoenix (de “Gladiador” e “Ela”), o filme solo do arqui-inimigo do Batman está chocando a todos pela forma realista que retrata a origem o vilão mais famoso das HQs.

O diretor Todd Phillips (da trilogia “Se beber, não case!”), conhecido por seu humor ácido, desta vez surpreendeu ao apresentar um filme cult, mesclando nuances de fantasia, realidade e violência de uma maneira que ninguém jamais ousou fazer para contar a origem do “Palhaço do Crime”.

A ORIGEM DO CORINGA NAS HQS

Você sabia que inicialmente o personagem foi rejeitado nas HQs? Quando seu autor, Jerry Robinson, apresentou as artes conceituais, a DC Comics recusou o personagem. Na época, os executivos da empresa achavam que não fazia sentido ter um vilão com cara de palhaço.

Somente um tempo depois Coringa foi aprovado e teve sua primeira aparição em “Batman #1”. Foi apresentado como um vilão polêmico cheio de insanidade, capaz de qualquer coisa. Obviamente, o personagem foi um sucesso.

Ao longo do anos, ele depois ganharia diversas versões memoráveis nos quadrinhos, seriados de TV, filmes e animações.

A HISTÓRIA DO FILME “CORINGA”

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No filme somos apresentados a Arthur Fleck, que trabalha durante o dia como palhaço em uma agencia de talentos — quase falida — e à noite tenta a sorte como comediante de stand-up. Toda semana precisa conversar com uma agente social, devido aos seus problemas mentais.

Arthur é só mais um homem lutando para sobreviver na sociedade despedaçada de Gotham City, em 1981. A cidade está enfrentado uma era corrompida, graças a uma corrida política. Após ser demitido, Arthur sente-se preso entre uma existência cíclica, oscilando entre realidade e loucura.

Após tomar uma decisão equivocada, causa uma reação em cadeia com consequências cada vez mais graves. A população inicia um movimento contra a elite de Gotham City. Em particular, contra Thomas Wayne (sim, o pai do Batman), um político vaidoso que trata a população como “palhaços”.

É nessa loucura que acompanhamos Arthur se transformar no criminoso Coringa.

“CORINGA” É UM FILME DO UNIVERSO DOS SUPER-HERÓIS?

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Pode-se dizer que sim, mas com uma pegada bem diferente da que estamos acostumados. O filme conta de fato a origem do Coringa, quem é Arthur Fleck e dos distúrbios que ele sofre.

Mas, por outro lado, vai contra a proposta de cenas cheia de efeitos especiais ou lutas megalomaníacas.

Observamos a história pelo olhar de Arthur, vendo milimetricamente cada passo de sua vida e suas limitações. Vamos acompanhando de perto um lado obscuro da sociedade mostrada de modo visceral. Isso certamente lhe deixará com um nó na garganta e em choque por algumas horas.

É uma história de pura psicologia humana, tendo uma pegada melancólica, com cenas tenebrosas e impactantes que nos mostra a faceta ruim do personagem. E ainda temos mistérios envolvendo a família Wayne e a de Arthur, fazendo quem vos escreve este texto ter um colapso mental.

O VISUAL DE GOTHAM CITY A FAVOR DA CONSTRUÇÃO DO PERSONAGEM

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Além de adentrar no psicológico de Arthur Fleck, um dos grandes destaques do filme é usar a fotografia a seu favor. Vemos uma Gotham City em meio ao caos, com ruas cheias de lixo e com um tom escuro.

Graças ao brilhante trabalho do diretor e da equipe de fotografia, você quase “sente” o cheiro ruim em determinadas cenas, causando nojo da cidade.

O filme se divide em duas partes. Primeiro temos Arthur enfrentando sua loucura nesta cidade caótica. E, depois, quando realmente temos o surgimento do Coringa, o filme vai ganhando cor e brilho.

É nítido como este trabalho enriquece e nos mostra a mudança do personagem. Um caso em que a fotografia do filme está a favor da narrativa, construindo o personagem.

O FILME REALMENTE É VIOLENTO?

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“Violento” não é a palavra que melhor descreve “Coringa”. Mas sim, é um filme que você precisa ter certo estômago para assistir. Ele é duro em nos mostrar a verdade nua e crua de um local e seus personagens fictícios, mas fazendo uma reflexão profunda sobre temas sociais e políticos do nosso mundo atual.

O filme levanta assuntos polêmicos que talvez nem todos estejam preparados para ver. Coloca em xeque a forma de como lidamos com pessoas que apresentam transtornos mentais na sociedade, as diferenças de classes sociais e como isso afeta a todos.

É O MELHOR CORINGA DE TODOS OS TEMPOS?

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Se é o melhor Coringa que já existiu, eu não sei. Mas que é o melhor dentro da proposta que foi apresentada, isso é um fato.

É admirável o trabalho de Joaquin Phoenix neste filme. Desde a primeira cena até a última, o ator traz o personagem de forma brilhante. Ele emagreceu 23 quilos para fazer o Palhaço do Crime, ficando esquelético em cena.

Além disso, ouvimos durante o filme diversas nuances de sua risada – que é quase uma marca registrada de Coringa – chegando a ser desconfortáveis, tudo isso graças ao empenho do ator.

A impressão que passa é que o ator nasceu para ser o Coringa na vida real, de tão impressionante o que vemos em tela. Arrisco a dizer que ele será indicado ao Oscar de melhor ator — e já tem a minha torcida pela estatueta!

AFINAL DE CONTAS, VALE A PENA VER “CORINGA” NOS CINEMAS?

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Sim, com toda certeza vale! Ao termino do filme, dá uma sensação de dinheiro muito bem gasto, que por mais de 2 horas te mostra um homem que enlouqueceu e, com isso, suas consequências.

Numa exploração ousada do surgimento do personagem, somos forçados a pensar sobre nós mesmos e como estamos vivendo ultimamente.

Certamente é um filme que deixará sua marca na indústria cinematográfica — e será lembrado por muitos anos como um divisor de águas no gênero de filmes com super-heróis e seus vilões.

Agora, nos resta aguardar se os próximos filmes da Warner Bros manterão este tipo de abordagem com os famosos personagens da DC Comics, como por exemplo o novo filme do Batman, já confirmado para 2021.