Borat 2

O que é verdade (ou encenado) no novo filme do Borat

ATENÇÃO: CONTÉM SPOILER

Saiu essa semana o “Borat 2” ou, como eles chamam, a “Fita de Cinema Seguinte de Borat”. O lançamento foi feito e bancado pela Amazon (quando tem o selo de filme original, significa que eles pagaram pela produção).

Desta vez, provavelmente devido à fama de Bahron Cohen e do personagem, Borat divide os holofotes com sua filha de 15 anos, Tutar, interpretada pela atriz búlgara Maria Bakalova de 24 anos.

Este é o quarto “mockumentary” (ou, numa tradução livre, documensarro) de Sasha Baron Cohen e, embora sejam esperados excessos, o novo Borat ainda assim espanta em muitos momentos.

São tantos momentos em que se pensa “não acredito que ele teve coragem de fazer isso” que a dúvida do que é real e o que é falso sempre paira no ar. Por isso, fiz uma pesquisa e juntei à minha experiência com cinema para dizer o que é verdadeiro.

Antes de chegar lá, é bom que se diga que o filme não é pior por ter passagens atuadas — seria se tivesse a pretensão de ser um documentário jornalístico; como não tem, tudo bem. Sendo entretenimento, o “desvio” é admissível.

SÃO REAIS

A ENTREVISTA DE GIULIANI: A cena mais controversa se dá quando Tutar entrevista o ex-prefeito de Nova York e advogado de Trump Rudy Giuliani. A entrevista é real e o próprio Giuliani já falou dela. Mas como convenceram o cara de participar? Não há outro meio senão este: Giuliani aceitou dar a entrevista a uma jornalista estrangeira e assinou uma licença de uso de imagem ilimitada sob o argumento de que era uma licença padrão (e é mesmo).

A INVASÃO DA CONVENÇÃO COM MIKE PENCE: A convenção onde discursa o vice-presidente americano Mike Pence é invadida por Borat vestido de Donald Trump (ou McDonald Trump, como diz o personagem). É real e foi noticiada. Na ocasião, no entanto, não se sabia que a pessoa em questão era Baron Cohen.

O SHOW DE BORAT NA MANIFESTAÇÃO CONTRA O DISTANCIAMENTO SOCIAL: Uma das cenas mais importantes do filme é a de Borat fantasiado de cowboy cantando numa manifestação conservadora cheia de pessoas armadas até com fuzis. Alguns participantes, que têm o rosto borrado, chegam a fazer o “heil, Hitler” quando Borat fala dos judeus. A cena é real e foi noticiada — novamente, sem ligar o acontecimento ao filme.

A CONVERSA COM A SUGAR BABY MACY CHANEL: A cena em que uma coach vai ensinar Tutar a ser sugar baby lembra muito as do primeiro Borat. Poderia ser tanto real quanto falsa, mas Macy confirmou a veracidade e não temos por que duvidar da moça.

SÃO PROVAVELMENTE REAIS

AS CENAS EM QUE BORAT É RECONHECIDO NAS RUAS: No começo do filme, Borat tenta cumprir sua missão mas é impedido pela fama que ganhou. As cenas devem ser reais, feitas com câmera escondida, pois é mais fácil e mais barato do que fakear.

O PASSEIO NA FEIRA ESTADUAL DO TEXAS: A cena em que ele passeia fantasiado de cowboy com Tutar numa coleira na feira estadual do Texas deve ser real pelo mesmo motivo: é mais fácil e mais barato simplesmente filmar na feira real do que montar uma cena e contratar figurantes.

A “CONSULTA” COM O PASTOR JONATHAN BRIGHT: Animada por comer pela primeira vez um cupcake com chantily, a filha de Borat engole um bebê de plástico que enfeitava o doce. Tutar vai então a uma clínica para mulheres com o pai ainda fantasiado de cowboy. Sabe-se lá como, terminam num consultório junto não a um médico mas a um pastor. “Eu quero tirar o bebê de dentro de mim”, diz a menina. O pastor tenta dissuadi-la, mesmo quando o pai diz coisas como “sinto-me culpado porque fui eu que coloquei” e “era o nosso segredinho”. Não há confirmação da veracidade da cena pela imprensa, mas ela deve ser real por três motivos: primeiro, a cena é filmada com apenas uma câmera, o que ocorre quando você não tem tempo de montar ou dar maiores detalhes aos estabelecimentos ou às pessoas envolvida (se quiser maiores detalhes sobre isso, veja as cenas em que explico porque não são reais). Segundo, foi confirmado pela Vanity Fair que o pastor é real e, houvesse um roteiro e alguém atuando daquela forma, teria que ser um ator profissional. Por último, o pastor tem sido procurado pela imprensa e se negado a falar sobre a cena, o que é mais um indicativo de sua participação involuntária.

O “PARTO” NO BANHEIRO: Passada a digestão do bebê de plástico, Borat e a filha vão a um banheiro público e têm um diálogo bizarro com frases como “força, o bebê está saindo” e “dá descarga, esse bebê é nojento”. Duas pessoas ouvem o diálogo. A cena deve ser real pois um deles tem o rosto borrado, o que sugere que, na saída, os sujeitos foram abordados e foi pedido que assinassem uma liberação de uso de imagem, provavelmente em troca de algum dinheiro. Tudo indica que um deles não aceitou.

A PARTICIPAÇÃO DE TUTAR NO ENCONTRO DAS REPUBLICANAS: Uma das cenas mais constrangedoras se dá num encontro de mulheres republicanas que ocorre num hotel próximo à clínica onde Tutar vai fazer uma cirurgia plástica (ou, de acordo com Borat, se mutilar). Tutar sobe ao microfone e, encantada com sua primeira experiência com masturbação, fala animada às senhoras o quanto é libertador colocar dois dedos na vagina e mover “assim ó”. Duas coisas são certas: que as participantes, senão todas a maioria, eram desavisadas; que a organização sabia, que algo grande estava sendo filmado, pela quantidade de câmeras que captava a reação das participantes. Acho improvável que soubessem que fosse Borat.

A CONVERSA COM A COACH DE DEBUTANTES DR. JEAN SHEFFIELD: Esta cena é semelhante à de Macy – pode ser verdadeira ou falsa. Como a primeira é real, presume-se que esta também seja.

A CENA DO CABELEIREIRO: A cena aparenta ser real, inclusive por Borat estar fantasiado de cowboy (e se apresentando como John Chevrolet). Não dá para colocar a mão no fogo pois há duas câmeras e algumas atitudes que podem indicar inconsistência, mas ainda acredito que foi real.

AS CENAS DAS LOJAS DE VESTIDO, JAULA, FANTASIA: No caso das cenas nas lojas de vestido, de fantasia e de jaula, fica evidente que não há armação, pela reação das pessoas e por ser usada apenas uma câmera. Mas ele está com a roupa tradicional de Borat, então o mais provável é que tenham o reconhecido e continuado a brincadeira.

SÃO PARCIALMENTE REAIS

A ENTRADA NA CONFERÊNCIA CONSERVADORA VESTIDO DE KKK: Para não ser notado na entrada da conferência em que levaria sua filha ao vice-presidente americano, Borat vai com a roupa de Ku Klux Klan. A gravação é real, bem como as reações de quem o vê, mas foi feita em outra ocasião — teria chamado muita atenção e ele não poderia ter seguido com a cena principal.

A DANÇA NO BAILE DE DEBUTANTES: A cena em que Tutar mostra aos convidados de um baile de debutantes sua calcinha menstruada se dá num evento em que os convidados já confirmaram que sabiam que o evento seria filmado e parte de um filme. Foram pagos inclusive, mas não para atuar. Agiram naturalmente.

A VISITA À SINAGOGA: Borat vai a uma sinagoga “vestido de judeu”. É recebido por duas senhoras, uma delas especialmente doce e amorosa. Baron Cohen admitiu que não conseguiu enganar as senhoras e saiu do personagem em algum momento, mas a primeira reação é real.

A BABÁ: Uma das pessoas mais doces a aparecer no filme é a babá. Você pode ter certeza que em algum momento ela soube do que ocorria — há, afinal três câmeras em seu próprio carro, e várias câmeras ficaram na casa. A reação dela ao receber Borat e Tutar, no entanto, parece genuína.

A CENA NA LOJA DE CELULAR: Borat vai comprar um “ábaco elétrico” para participar da “febre por calculadoras” que os EUA vivem. A atuação do vendedor leva a crer que a abordagem é real, mas não há meio de a produção ter dado sequência sem que ele, em algum momento, fosse avisado do que se tratava — até porque ele aparece no fim numa cena com roteiro e fala definidos.

A CONSULTA COM O CIRURGIÃO PLÁSTICO: Borat leva sua filha para uma consulta com o cirurgião plástico Charles Wallace, um médico real que atende em Dallas (seu site é drwallace.com). Embora ele aparente não saber que está participando de um Borat, eu acredito que a cena subsequente, na recepção, não é real: há câmera atrás do balcão e a contagem da sacola com 21,000 em notas de 1 dólar tem toda a cara de fake.

SÃO PROVAVELMENTE FAKE

A CENA NA BARBEARIA: Para ganhar uma grana, Borat vai trabalhar de barbeiro com sua roupa tradicional e uma tesoura rudimentar. O cliente genuinamente não parece estar atuando, mas o último detalhe da cena — o pagamento pelo corte — entrega que a cena não é real, pois para fazer uma cena dessas, ainda que a pessoa não saiba que está participando do filme, ela precisa receber um dinheiro. Ou, no mínimo, um corte grátis.

AS CENAS DO FAX: Borat encontra uma gráfica expressa onde envia fax para o governo do Cazaquistão. O atendente não aparenta atuar, mas há uma sincronicidade impossível de acontecer sem algum tipo de combinado: quando uma notícia que promove um insight em Borat aparece na TV.

A CENA DA DOCERIA: Passeando na feira estadual do Texas, Borat e Tutar entram numa doceria onde terminariam por comer o bebê de plástico que gera toda a controvérsia do pastor e do banheiro. É certo que esta doceria conhecia a participação na produção, pois o cupcake feito daquela forma específica é parte crucial na história, o que significa que a bandeja foi colocada pela produção. Além disso, há 3 câmeras na loja, uma delas atrás do balcão. O que não dá para afirmar é que eles sabiam que era um Borat.

SÃO FAKE

A ENTREGA DA FILHA NUMA CAIXA: Tutar chega a Borat através de uma caixa. A cena sugere que o entregador não sabia do que se tratava, mas isso é impossível, até por questões de segurança da atriz.

AS CENAS NA CASA DOS BARBUDOS: Baron Cohen já deu entrevistas dizendo que ficou, como personagem, durante 5 dias naquela casa e que é tudo real. Mas eu vou arriscar que é mentira — a única parte real pode ter sido a abordagem a um dos sujeitos e, talvez, para o segundo, a chegada de Borat na casa. Eis meus argumentos: Baron Cohen está vestido de Borat em toda sua glória o tempo inteiro. É altamente improvável que não tenha sido reconhecido durante os 5 dias quando eles tinham acesso à internet (Borat está na Amazon Prime), telefone, familiares e amigos (ninguém do círculo deles assistiu Borat?). O sujeito não teria levado tão fácil Baron Cohen e, no mínimo, seu câmera para dividir a casa com ele e seu roommate no meio da pandemia. A presença da câmera não pode ter sido tão discreta que não tenha feito algum deles ir atrás de alguma coisa. Borat vai à manifestação fantasiado de cowboy americano. Nenhum deles perguntou por quê?