“Quem vê o mundo aos 50 anos como via aos 20, desperdiçou 30 de vida”

Thiago Sievers
Thiago Sievers Head de Parcerias

Muhammad Ali se foi? Não diria isso. Apenas seu corpo se foi. Mas seu corpo não se foi nesse sábado, dia 4. Seu corpo já estava indo há 32 anos, período em que entrou na única luta que sabia, de cara, que sairia derrotado: contra o Mal de Parkinson.

Mas isso não desmerece o momento da morte. Esse é um instante importante. Geralmente na morte lembramos as lições que quem se foi nos deixou. E Ali legou incontáveis lições à humanidade.

Grande parte delas vieram de suas frases.

O lutador era famoso não somente pelo potencial dentro do ringue, mas pelo pensamento revolucionário e personalidade forte. As incontáveis frases de Ali servem para reflexão e inspiração.

E hoje gostaria de destacar uma em especial: a que intitula a matéria e que, por questões práticas, me dei a liberdade de resumir.

Ei-la completa:

“Um homem que enxerga o mundo aos 50 anos da mesma forma que enxergava aos 20, perdeu 30 anos de vida.”

A sentença exprime o mesmo pensamento filosófico de Raul Seixas em “Metamorfose Ambulante”. Ou seja, hoje somos assim, pensamos assim, enxergamos o mundo assim — amanhã pode ser diferente. Melhor: deve ser diferente.

Se não for, alguma coisa está errada.

Essa é uma daquelas frases que lemos, achamos linda e pensamos: “Que gênio! Esse cara é foda. Sabe tudo”.

A questão é: por que tememos aplicá-la em nossas vidas?

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Por que o medo de mudar de opinião?

A gente idolatra a canção do velho Maluco Beleza, mas na hora de metamorfosear travamos. É mais fácil aceitar que o time rival é melhor que o seu, do que assumir a mudança de um ponto de vista.

Vivemos sedentos em busca da razão. Fazemos questão de pensar que a nossa maneira de enxergar o mundo é a maneira certa. E isso não é de hoje.

Séculos antes de Cristo, Sócrates já andava pela Grécia desafiando a todos com sua dialética mortal — mortal para a arrogância humana. Apenas com perguntas, o filósofo desarmava qualquer pessoa, fazendo-a perceber que, se antes era cheia de certezas, depois da conversa a única certeza que tinha era a sobre a fragilidade de suas convicções.

Por isso o cara cravou com segurança: “Só sei que nada sei!”

E essa é a beleza da vida, senhores! Só se cresce mudando. Se não há mudança, permanece-se no mesmo lugar. Nada mais óbvio, nada mais razoável.

Deveríamos, portanto, sentirmo-nos satisfeitos ao reconhecer e assumir um pensamento obsoleto em nós mesmos. Equivocar-se na filosofia de vida é processo natural do amadurecimento.

O problema é que, como sociedade, não pensamos assim. Para nós, uma pessoa que muda de opinião é frágil, é fracassada, é insegura — é, como diria Phoebe à Rachael, “mosca morta”.

Mosca morta my ass! Essa pessoa é sábia para cacete!

I Am Ali film. Handout via Gareth A Davies.

Ter a velha opinião formada sobre tudo é sinal apenas de uma coisa: que você está desperdiçando sua vida. E se você não concorda comigo, tenho pelo menos três mitos que concordam.

É dessa realidade que surge a nossa dificuldade em travar diálogos construtivos, porque geralmente não estamos dispostos a ouvir o outro.

Entramos numa discussão como entramos numa guerra: prontos para vencer. Só que essa é a declaração de que já perdemos, porque com essa cabeça é impossível abrir-se para novos conhecimentos. E se estamos fechados para o mundo, como poderíamos ganhar alguma coisa que não seja falsos valores para nossa arrogância?

Inclusive, já falei por aqui que saber conversar é qualidade indispensável do homem maduro.

Então aproveitemos que vivemos numa era de fácil comunicação para perceber qual a nossa postura frente aos nossos pontos de vistas: somos engessados ou somos flexíveis?

E, assim, lembremo-nos de mais uma frase de Muhammad Ali:

“O silêncio vale ouro quando não se consegue achar uma boa resposta”.