Que leitor não se lembra do impacto causado pelo curioso comercial da marca de cosméticos americana Dermablend, cuja mensagem “Go Beyond the Cover” – vá além da capa – convoca o telespectador a visualizar a imagem intrigante do jovem modelo conhecido por Zombie Boy?

Com quase 100% do corpo desenhado, o rapaz propunha a todos uma interessante reflexão: quais julgamentos recebemos por possuirmos (ou não) tatuagens?

A palavra tatuagem vem do inglês “tattoo” e tem origem com o capitão inglês James Cook (1728), que escreveu em seu diário a expressão “tattow”, uma onomatopeia do som feito durante a execução dos desenhos, na qual se utilizavam ossos finos como agulhas que eram batidos com uma espécie de martelinho de madeira para introduzir a tinta sob a pele.

Ou seja, não é de hoje que os seres humanos se ornamentam.

O jornalista carioca Toni Marques, em seu livro “O Brasil Tatuado e Outros Mundos”, relata uma evidência concreta de tatuagem na pré-história: o chamado Homem de Gelo, um corpo congelado, encontrado na Itália em 1991 e datado de 5.300 anos a.C. “Ele tinha tatuagens na região lombar, no joelho esquerdo e no tornozelo direito”, observa.

A tatuagem também deixou vestígios no Egito antigo, na Mongólia de 400 a.C., nas civilizações pré-colombianas do início da era Cristã e até nos autos da Inquisição.

Mas seu principal nicho foram as ilhas da Polinésia, no sul do Oceano Pacífico, onde tribos como a dos maori usavam ossos pontiagudos para tatuar o corpo inteiro, inclusive o rosto. Para os maori, desenhar a pele era um ritual de transformação do menino em guerreiro, ou da menina em esposa. “Os marinheiros que exploraram a região, no século 18, ficaram tão encantados que aderiram ao costume e, aos poucos, foram transportando a tatuagem para os portos europeus”, relata Toni.

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Já no Brasil, urucum e jenipapo forneciam as tintas introduzidas na pele dos índios, muito antes da chegada dos portugueses. Mas a tatuagem só se disseminou no século 19, com a abertura dos portos e a mistura de marinheiros estrangeiros com a população das cidades litorâneas.

“O fascínio dos desenhos trazidos por esses marinheiros seduziu as prostitutas, seus fregueses brasileiros e o submundo do crime”, destaca o pesquisador. Esse público, na verdade, só começou a mudar quando os surfistas do Rio de Janeiro voltaram a usar tatuagem, na década de 1970.

A explosão de modificações corporais atualmente está presente nas propagandas, na arte, programas de televisão, sites, espalhadas por todo o mundo. Já não é mais um fenômeno restrito à comunidades, guetos, classes sociais e econômicas específicas.

Do desenho pequeno e delicado das tatuagens femininas às intervenções mais radicais como escarificações (desenhos formados por cicatrizes ao se retirar camadas de pele), burning (cicatrizes de queimaduras), suspensão (através de perfurações) e outras, estabeleceu-se uma nova forma de apresentação ao mundo que convoca o olhar, o afeto e o pensamento do outro.

Mas, então, porque fazer tatuagens?

Arte, prazer, memória, elaboração de experiências, autoestima, completude, expressão de si, diferenciação, oposição, superação de limites do corpo, superação da dor, diversão, oportunidade para cuidar de si, apoderamento do corpo, sentir-se vivo, participar de uma minoria, sensações sexuais, e…”porque sim!”.

As justificativas podem ser as mais variadas, assim como os desenhos utilizados. O papel das tatuagens se assemelha ao papel dos amuletos que, quando carregados, transmitem força, coragem e determinação. Servem para que as pessoas sintam-se mais atraentes, ou então como marca de singularidade, distinguindo seu dono dos demais do grupo.

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O que percebo em minha clínica é que a tatuagem, assim como a cicatriz, pode representar, a quem as têm, rastros deixados por importantes vivências – um luto, uma doença, um sofrimento, uma libertação. Uma elaboração no físico de uma forte experiência psíquica.

Marcas da vida.

Estas marcas são o que nos fazem individuais, e, portanto, a tatuagem torna-se ilustração de um desejo de contar algo de sua história. São formas de linguagem implicadas com a busca de identidade e como expressão do sujeito. A pele torna-se tela onde se inscreve, literalmente, sua história.

O sujeito se esforça para exteriorizar seus afetos, fantasias e desejos, e com isso o corpo, mais uma vez, funciona como um meio de comunicação.