Espantei-me com a cena a que estava assistindo: um homem, após uma inexplicável e tola briga de trânsito, entra em seu BMW e atropela seu “inimigo”, um senhor, deixando-o caído ao chão com a perna machucada.

O “atropelador” para logo a frente e eu aliviada penso: “Ufa! Ele deve ter se arrependido e irá ajudar o pobre homem que está agonizando no chão”.

Mas era eu quem estava terrivelmente enganada. Ele apenas havia saído para averiguar qual o estrago causado em seu carro pela perna que havia acabado de esmagar. Tudo em ordem, vai embora após certificar que sua vítima havia sido atingida.

É surpreendente como esta cena, apesar de forte, é bastante comum em nosso cotidiano pelas ruas e trânsito do mundo. Homens e mulheres que, munidos de seus carros, tornam-se cegos e irracionais.

Carros silenciosos, velozes, automáticos. Essas e outras facilidades, tornam o veículo extensão de nosso corpo, como braços e pernas que alongam-se no cumprimento de nossos objetivos e afazeres do dia-a-dia. “Passar por cima do outro”, nunca esteve tão literal em nossa cultura.

O que havia acontecido com o motorista do BMW que, atropelando todos os preceitos civilizatórios, voou em direção ao idoso que estava na rua?

Uma hipótese: Síndrome de Amok, nome dado a esse momento de fúria descontrolada.

Essa síndrome é caracterizada por uma explosão súbita e inesperada de agressividade que acomete indivíduos considerados pacíficos e sem histórico de comportamento violento. Muitos casos terminam tragicamente, seja com a morte dos alvos do ataque de fúria, seja com uma ação fatal para tentar deter o indivíduo agressor.

Amok, na cultura malaia, é um grande e pacífico tigre que, tomado por um espírito, inesperadamente enfurece e sai em disparada destruindo a tudo e todos que cruzarem o seu caminho. Segundo as atuais classificações psiquiátricas, Amok é considerado uma síndrome ligada à cultura, entretanto, tem todas as características de um transe dissociativo.

Os sintomas incluem:

  • Um período inicial de isolamento que dura de horas a dias;
  • Ataques violentos, súbitos e imotivados dirigidos a pessoas que estejam próximas, sejam parentes, amigos ou desconhecidos;
  • Os ataques duram de minutos a dias até que o indivíduo seja contido ou morto;
  • Caso a pessoa acometida sobreviva, após o surto, tipicamente, entra em um estado de estupor ou sono que pode durar dias;
  • Após despertar, geralmente o indivíduo permanece isolado ou em mutismo e é incapaz de recordar o que aconteceu.

Amok é uma síndrome, um surto, uma doença.

Mas o que me chama a atenção, é que para além da loucura psiquiátrica, estes também são sintomas que diagnostico na “loucura cotidiana” de todos nós.

Nesta única cena, inicialmente citada, não houve espaço para a tolerância, a educação, civilidade, o respeito às leis e aos mais velhos. Houve apenas espaço para que o animal, sustentado pela carcaça de seu carro importado, atropelasse sua presa.

Disse que, para além de um transe dissociativo, esta era uma síndrome ligada à cultura.

Mas o que de fato isto significa?

Que esta é a cultura do imediatismo, da prevalência de seu interesse à saúde e segurança do outro, da falta de gentileza. Será?