Rolling Stones

É apenas rock and roll, mas eu gosto | Clássicos ELH #015

Publicado originalmente em SETEMBRO/2012; veja aqui mais artigos da série “Clássicos ELH”, uma coletânea de textos atemporais em comemoração ao aniversário de 10 anos do El Hombre.

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Os Rolling Stones completaram 50 anos de vida. De 1962 a 2012, eles estiveram por palcos, estúdios, camas, camas e camas por aí. Alguns estiveram em camas de hospitais e até sanatórios. Mas em geral, essas camas foram usadas para práticas muito divertidas.

Com o aniversário do primeiro show da maior banda do mundo, ficou uma promessa de que a banda voltaria a tocar – Mick Jagger disse que gostaria de se apresentar ainda este ano, para comemorar as bodas de ouro deste casamento aparentemente feliz de camaradas.

E eis que meu rádio, esta noite, me diz que esses shows acontecerão em novembro. Depois de uma breve pesquisa, descubro que a notícia veio do site de entretenimento da Billboard. Eu acredito que realmente estes shows devem acontecer, considerando a fonte, mas não apostaria meu mindinho nisso. Aposto, sim, meu mindinho, que isso envolve negociações extremamente complexas. Portanto, uma ou outra mudança de planos pode ainda haver.

Segundo o site, a banda irá receber 25 milhões de dólares por quatro shows. Fazendo a conversão, isso dá mais ou menos R$ 12.750.000,00 por show. É um bocado de zero para trabalhar por uma noite.

Vamos fazer um exercício de imaginação do que é viver um dia na vida de um Stone, digamos Keith Richards: você tem uma bela casa. É bem servido. Os netos certamente são cheirosos e bem cuidados. No almoço, dois dos netos, hoje adolescentes, vão fazer companhia para o avô e ouvir as histórias da época em que o velho namorava Michelle Pfeiffer. Eles jogam críquete no amplo jardim, depois fazem um sonzinho no estúdio localizado no terceiro andar do imóvel. Um dos netos pede a guitarra Fender Telecaster amarela de 1972 de presente. Você dá – não vai ter grande utilidade mesmo.

Já está perto do fim da tarde, então você pega uma malinha de roupas, que te aguardava prontinha ao lado da porta, e segue com o fiel motorista para o Ritz. Lá, ele encontra os companheiros de banda e janta. Coloca a conversa em dia.

Chegando próximo da noite, você nota que faltou um chapéu na mala. Mas isto não é um problema, porque o hotel fica na Oxford Street, e ali estão as maiores grifes de Londres. Você vai comprar um chapéu. Algumas pessoas o cumprimentam na rua, e você as cumprimenta de volta. Uma fã pede que você assine seus seios – e embora já tenha feito isso incontáveis vezes na vida, ainda sente alguma emoção. Quando chega à loja, a vendedora oferece o chapéu de graça, mas você faz questão de pagar, até para que a moça ganhe sua comissão.

Na volta ao hotel, a limusine o espera. As outras três limos dos outros três Stones deixaram o hotel há 5 minutos. Próximo à porta do automóvel, espera o seu terceiro neto com o pai, que vão acompanhá-lo no show desta noite. Um velho amigo, Bob, também aproveita a carona – ele estava hospedado no hotel (o nome completo do amigo, by the way, é Robert Zimmermann, ou Bob Dylan).

Você chega à O2 Arena, na zona Leste de Londres, a tempo de colocar um sanduíche na boca, fumar um cigarro e perguntar ao roadie se desta vez ele vai lembrar que Sympathy For The Devil é com a maldita Stratocaster vermelha afinada em Sol, não com a Gibson preta em Mi.

Entra no palco escuro, sente o cheiro da fumaça cênica, que lhe fez falta nos últimos anos. Você está fumando um cigarro. Ainda é uma sensação e tanto o começo do show – até porque pode ser o último. Você olha para o Ronnie. Dá um suspiro. Olha para o Mick. Ele vem cantar do seu lado. Você olha para o Charlie. Quantas memórias.

Ele acaba o show. Uma assistente do stage manager lhe coloca um robe confortável. Bob já foi embora. O motorista da limusine pergunta se deseja ir para o hotel. Não, você responde. Hoje, vou direto para casa. Amanhã, busque minha mala no hotel, por favor.

E você deita, triste. A ideia de ter 6 milhões de dólares na conta só por estes 4 shows lhe é um acalento. Mas o que você queria mesmo era dormir e amanhã acordar com 25 de novo, só para poder sentar num estúdio e gravar Sticky Fingers, daquele jeito, com aquela guitarra que acabou faltando.