El Hombre conversou com um refugiado sírio

A guerra civil na Síria completa dois anos e parece cada vez mais distante de um final feliz. Enquanto soldados rebeldes resistem com apoio de países como EUA e França, tropas leais ao presidente Bashar al-Assad mantém o ataque pesado a cidades controladas pelos rebeldes, como Aleppo, a segunda maior do país.

Segundo estimativas da ONU, já são mais de 70 mil mortos desde o início dos confrontos em março de 2011. Mas, restrições ao trabalho da imprensa impostas por Bashar al-Assad e ataques contra jornalistas dificultam a noção exata do que realmente acontece no país.

Em Aleppo, perto da fronteira com a Turquia, a fome e o pavor tomam conta dos poucos civis que ainda permanecem no local. O local é o principal centro controlado pelos rebeldes e também o alvo principal de ataques aéreos comandados por Bashar al-Assad.

Logo que a guerra estourou em Aleppo, o estudante de medicina Louai Al-Jabri, 19, e a família, que possuíam boa renda na Síria, conseguiram fugir para a Arábia Saudita. Conheci Louai no final do ano passado, durante um curso de inglês na Cidade do Cabo, África do Sul, e esta situação me chamou a atenção.

Hoje Louai segue os estudos de medicina na rica cidade saudita de Jeddah, mas ainda possui parentes na Síria e por onde anda faz questão de exibir mensagens de paz com a bandeira do país. Conversamos com o estudante, que esclareceu alguns pontos da guerra civil com exclusividade para o El Hombre.

Como a guerra explodiu em Aleppo?

No começo eram só protestos. O governo começou a responder com ataques fatais e isso gerou uma revolta ainda maior na população. Quando saí, ainda não haviam bombas nem mísseis, só algumas mortes ocasionais. Mas, como tínhamos parentes aqui na Arábia, minha família achou melhor nos mudarmos.

Como está a cidade agora?

Totalmente destruída. Não temos nem ideia de como está o bairro onde vivíamos. Só ficou quem quer lutar. Aleppo está pior do que qualquer cidade na Síria no momento porque quase 80% dela está nas mãos dos rebeldes e as tropas de Bashar bombardeiam a cidade com mísseis na tentativa de tirá-los de lá.

Qual a importância de Aleppo, tanto para os rebeldes como para Bashar al-Assad?

É um dos últimos focos de resistência dos rebeldes. Além de ser a segunda maior cidade da Síria e um centro militar. Além disso, é perto da fronteira com a Turquia.

Você tem familiares que ainda vivem por lá?

Sim, tenho.

E como está a situação deles agora?

Está muito ruim. Não há comida o suficiente, além da falta de serviços básicos como luz e água. Todos os dias a cidade é atacada por mísseis. Eles não sabem até quando vão sobreviver e têm a sensação de que podem morrer a qualquer segundo.

Como você se comunica com eles?

Nos falamos por telefone e internet quando é possível.

A maioria é a favor ou contra o regime de Bashar al-Assad?

No começo a maioria dos jovens como nós viviam bem e eram a favor a Bashar. Mas agora, com o início da guerra, ninguém quer mais ele no poder. Ele matou muitos inocentes e mostrou-se muito preconceituoso contra a população sunita. Acabou para ele.

Há um grande desencontro de informações sobre as vítimas por causa das restrições impostas à imprensa. Você sabe o que realmente está acontecendo no seu país?

Temos uma ideia maior do que está acontecendo por causa do contato com os familiares.

Você perdeu algum conhecido nessa guerra?

Sim, mas apenas amigos de amigos.

As tropas rebeldes são formadas apenas por sírios ou contam com soldados de outros países?

A maioria são sírios, cerca de 80%. O resto é formado por pessoas de países como Líbia, Egito, Arábia Saudita, entre outros.

Como era a Síria antes da guerra?

Um país aberto e receptivo. Sempre víamos grandes problemas nos países vizinhos como Iraque ou Líbano. Nunca pensei que chegaria tão perto.

Você espera voltar lá em breve?

Em breve não, para ser sincero. Mas espero poder voltar um dia.

Louai Al-Jabri
O estudante de medicina Louai Al-Jabri: “Espero poder voltar para a Síria um dia”