Mad Max

Por que Mad Max é o melhor filme de ação dos últimos anos

É difícil afirmar assim que um filme é lançado, mesmo após sua recepção por parte da crítica e do público, com que força ele marcará seu nome na história. Afirmar – porque há aqueles filmes que, logo de cara, pode-se apostar que ficarão como uma referência por muito tempo. E Mad Max: Estrada da Fúria (Mad Max: Fury Road) é um clássico instantâneo do gênero de ação.

Em 1979, o diretor George Miller precisou de apenas 400 mil dólares para lançar Mel Gibson à fama, com Mad Max, longa pós-apocalíptico sobre um policial em busca de vingança, numa Austrália cheia de gangues de motoqueiros. Arrecadando quase 100 milhões de dólares pelo planeta, deteve, durante 20 anos, o recorde de filme mais lucrativo do mundo (comparando o custo com a arrecadação).

Mas sua continuação, Mad Max 2 (1981), que até hoje é considerada um “A” obra, está num patamar semelhante ao de clássicos do gênero como Rambo: Programado para Matar (First Blood, 1982), Máquina Mortífera (Lethal Weapon, 1987), Duro de Matar (Die Hard, 1988) e O Exterminador do Futuro 2: O Julgamento Final (Terminator 2: Judgment Day, 1991), entre outros.

De lá para cá, George Miller não foi exatamente um dos cineastas mais produtivos, mas não por isso deixou de mostrar-se, cada vez mais, um artista admirável como diretor (e roteirista e produtor).

Foi indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Original pelo emocionante O Óleo de Lorenzo (Lorenzo’s Oil, 1992); não dirigiu, mas escreveu e produziu o lindo Babe: O Porquinho Atrapalhado (Babe, 1995) – que, além de tudo, fez crescer bastante o vegetarianismo nos Estados Unidos -, indicado ao Oscar de Melhor Filme; depois dirigiu sua subestimada, sombria e absolutamente belíssima continuação Babe: O Porquinho Atrapalhado na Cidade (Babe: Pig in the City, 1998); e o excelente comédia/musical/alerta ambiental Happy Feet (2006), vencedor do Oscar de Melhor Animação.

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ESTRADA DA FÚRIA

Eis que, 30 anos após o último filme da franquia protagonizada por Mel Gibson e depois de passar brilhantemente por outros gêneros, Miller volta para redefinir o cinema de ação, agora com uma produção de 100 milhões de dólares. Pois Estrada da Fúria é adrenalina pura durante 120 minutos. É um deslumbre visual desde o primeiro ao último plano. É um grito de liberdade, em diversas esferas. E muito mais.

A premissa do longa é bastante simples e basicamente está lá apenas para servir de motivo para toda a ação do filme. A trama em si pouco se desenvolve, não é nada complexa e não almeja nenhuma reflexão muito profunda no espectador. Mas isso não quer dizer que seja uma obra vazia. Longe disso, aliás.

A produção consegue fazer uma contundente crítica social, destacando principalmente problemas como o machismo e a falta de recursos naturais, mas também abrindo bastante espaço para leituras sobre outros temas, como a exploração animal.

E mesmo que não houvesse nada mais profundo na obra, seu objetivo principal, a ação, é alcançado com sucesso invejável. Mad Max é basicamente uma ininterrupta e insana – no bom sentido – perseguição sobre rodas extremamente bem orquestrada e com um visual fascinante.

A concepção visual do longa é absurdamente criativa. A caracterização dos personagens, dos veículos e das cores das paisagens desérticas fascinam a todo momento. Sem falar na arriscada decisão do diretor de “aumentar a velocidade” de várias cenas – tecnicamente, diminuir o frame rate – algo que poderia causar um terrível estranhamento no espectador, mas que flui e se encaixa muito bem na proposta.

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AS ATUAÇÕES

E as atuações também merecem menção. Nicholas Hoult encarna a loucura de um personagem fanático, mas também melancólico. Tom Hardy entrega uma interpretação bastante contida, trazendo um Max de poucas palavras – como o filme todo, aliás – e muita desconfiança.

E Charlize Theron rouba a cena como o verdadeiro “herói” do filme ao interpretar Imperator Furiosa, uma personagem bastante sofrida, mas com vontade, coragem, confiança, força, habilidade e motivação de dar inveja à maioria dos “mocinhos” de ação.

O que nos leva à maior “polêmica” da obra. A força, a independência e a importância, não só de Furiosa, mas de todas as personagens femininas do filme, desagradaram uma associação de “ativistas pelos direitos dos homens” que não só acreditam que o feminismo está infiltrando-se e cooptando Hollywood, mas que agora ousou roubar o protagonismo de uma série clássica. Pois é…

Ou seja, além de todas as qualidades, a produção ainda consegue militar fortemente em favor da representação feminina no cinema. A única crítica real que cabe ao filme, a meu ver, é que, por algumas vezes, a ação fica um pouco confusa. Mas ainda bem menos do que a imensa maioria das obras do gênero.

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E O OSCAR

É tudo tão perfeito, tão coeso, que seria muito gratificante ver o filme sendo lembrado em diversas categorias técnicas no Oscar do ano que vem. Não seria nada mais justo vê-lo entre os indicados à Maquiagem, Figurino, Desenho de Produção, Mixagem de Som, Edição de Som, Efeitos Visuais – até pelo fato de muito pouco ter sido gerado por computador – e, quem sabe, até Fotografia e Montagem.

E, apesar de difícil, também não seria de se espantar vê-lo na categoria principal da premiação. Eu disse difícil? Sim, mas trata-se de um filme que, espantosamente, foi tão universalmente bem recebido que não sei com qual outro longa-metragem dos últimos anos eu poderia comparar. Público delirando em êxtase, festival de Cannes – onde foi exibido fora de competição – ovacionando, 98% de aprovação no site Rotten Tomatoes

Para comparação, Gravidade (Gravity, 2013), talvez o último filme a agradar tanto e a tantos ao mesmo tempo, tem 97% de aprovação. E foi um dos dois favoritos ao Oscar, em seu ano.

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MELHOR FILME DE AÇÃO DOS ÚLTIMOS ANOS

Pois Mad Max é um filme excepcional, independente de seu gênero. Mas quando comparado com outras obras de ação, ele se destaca de uma maneira impressionante.

O longa não tem o tom sombrio e as discussões de Batman: O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, 2008), não tem a popularidade dos filmes da Marvel, não tem profundidade dos X-Men, não tem a complexidade ou a originalidade de A Origem (Inception, 2010), mas é, talvez – e até por sua “simplicidade” -, o melhor filme de ação desde Matrix (The Matrix, 1999).

Quantos filmes dos últimos 20 anos – além, é claro, do próprio Matrix – podem dizer que serviram de forte influência para o cinema do gênero nos anos seguintes? O Tigre e o Dragão (Crouching Tiger, Hidden Dragon, 2000), A Identidade Bourne (The Bourne Identity, 2002), Kill Bill – Volume 1 (2003) e Batman Begins (2005). Acredito que só.

Mas ao assistir a Estrada da Fúria, era inevitável a sensação de que eu estava vendo uma nova maneira de pensar e fazer o gênero, algo que serviria de influência por pelo menos alguns anos em Hollywood.

Não que o longa tenha inovado a linguagem ou a técnica da sétima arte. Longe disso – apesar de eu não me lembrar de ter visto o frame rate ser usado dessa forma com tanta frequência e tanto sucesso em outra obra.

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Mas mostrou que um filme pode usar uma história simples e ao mesmo tempo crítica; pode se focar 100% na ação sem deixar de criar personagens interessantes; pode tirar o fôlego do espectador durante duas horas e ainda dar tempo para ele apreciar a beleza das imagens; pode ter batalhas complexas sem deixar o público perdido; pode ser pura adrenalina e ainda se preocupar com questões de gênero (representação feminina).

A verdade é que só saberemos ao certo o quanto Mad Max: Estrada da Fúria marcará seu nome na história do cinema daqui a alguns meses ou até anos, mas tem tudo para, no futuro, estar lado a lado de títulos como O Exterminador do Futuro 2.

O longa de George Miller não inventou a roda nem descobriu o fogo, mas uniu esses dois elementos de uma forma absolutamente surpreendente.

TRAILER DE MAD MAX