O tabuleiro não morreu: conheça o jogo brasileiro que arrecadou mais de 100 mil em crowdfunding

Quanto você investiria num jogo de tabuleiro de robôs customizáveis contra monstros? Nada? Pois saiba que mais de 420 pessoas já doaram R$ 110 mil para um projeto de jogo de tabuleiro com essa temática.

Caçadores da Galáxia é um game offline mineiro criado por Daniel Alves. O jogo aposta em cards e cenários de papel para simular combates eletrizantes e é o maior sucesso de tabuleiro de crowdfunding brasileiro no site Kickante.

A campanha foi iniciada em fevereiro de 2015 e vai até 19 de abril. O valor que a equipe desenvolvedora precisava era de apenas R$ 25 mil – o que foi alcançado nos primeiros trinta minutos em que o projetou entrou no ar. Ou seja, até agora temos um aumento de 340% da cifra necessária na arrecadação.

Desenvolvedor, Alves faz parte da Histeria Games e realizou testes com especialistas por todo o Brasil para validar a experiência de Caçadores da Galáxia.

Os doadores podem oferecer desde R$ 10 (e aí ganham um sincero agradecimento) até R$ 215 (e aí ficam com a versão normal do jogo com previsão de entrega em 30 de novembro de 2015). O grupo também está comercializando canecas por R$ 35 e camisas de algodão, em diferentes tamanhos, por R$ 48.

Caçadores da Galáxia foi desenvolvido em Juiz de Fora, interior de Minas Gerais.

O JOGO

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Parte do tabuleiro

Caçadores da Galáxia é um jogo que dura entre 20 e 30 minutos. O game funciona com duas até quatro pessoas. Mas há a opção de expansão, chamada Fronteiras, que permite até cinco players.

O jogo é se baseia na mecânica eurogame (apesar de utilizar outras ideias também, o que o torna ainda mais interessante) e se passa num futuro distante onde monstros ameaçam a paz da galáxia. E quem tem a função acabar com essa ameaça alienígena é você.

Com dono de uma megacorporação e, por meio de um robô gigante e um piloto que o controla, você explora a galáxia a fim de destruir esses monstrengos e coletar material genético alienígena para cumprir as diversas missões que surgirem.

Para isso será necessário administrar recursos para evoluir equipamentos e adquirir matéria prima com a intenção de melhorar a customização, o que lhe dará maiores possibilidades para explorar a galáxia e também nos combates contra os monstros alienígenas.

São diversos robôs e pilotos à disposição dos players, cada um com habilidades específicas. Além disso, o piloto é unido ao robô por uma ligação neural, o que faz somar suas habilidades, tornado-os como se fosse um único organismo.

Esse é o tipo de jogo em que a sorte conta pouquíssimo, valorizando ao extremo a capacidade de raciocínio, estratégia e paciência do jogador. Dados? Nada disso. A intenção é que o acaso tenha influência mínima.

CENA BRASILEIRA DE JOGOS DE TABULEIRO

O Behold Studios de Brasília lançou no ano passado o crowdfunding no Catarse de Gladiadores de Belathron, um card game que se mistura com a jogabilidade de jogos online de arena, como League of Legends. Outra empresa, a Smyowl de Sorocaba, também lançará seu jogo de carteado chamado Kron. Os dois títulos foram anunciados em 2014 e mostram uma cena nacional forte neste estilo de jogo.

Criadores de games digitais gostam de tabuleiro para testar regras de jogos, tentar o uso de realidade aumentada, detectando objetos digitais através da câmera do smartphone, ou mesmo para evidenciar falhas em um projeto. Estes três títulos que mencionamos, no entanto, hombre, são iniciativas com um viés mais comercial.

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Gladiadores de Belathron

Gladiadores de Belathron entrou na arrecadação coletiva pedindo R$ 92 mil. Embora o Behold Studios seja reconhecido por games famosos, como Knights of Pen and Paper e o novo Chroma Squad, que chega neste ano, a iniciativa só arrecadou R$ 32 mil. Não foi um sucesso.

No entanto, fora do universo dos crowdfunding, Kron começou a ser concebido através de ilustrações criadas dentro da Smyowl. O jogo aposta em cartas e num cenário colorido, com 30 personagens e 60 cartas itens que funcionam com dados para gerar danos e ações. O objetivo do game é conquistar uma coroa.

Como não depende do financiamento coletivo, a desenvolvedora sorocabana tem mais calma para desenvolver a iniciativa.

No evento “Games for Change Latin America” 2014, a iniciativa A Jogada foi vencedora do pitching para conseguir investimento e é um game de mesa para acelerar iniciativas empreendedoras, como reuniões de negócios e de planejamento. O jogo incentiva o desenvolvimento horizontal e descentralizado contra a forma hierarquizada de gerir negócios.

CENA ATUAL

Jogos de tabuleiro sempre foram desenvolvidos no Brasil como projetos, mas há uma cena mais consolidada há pelo menos oito ou nove anos. Esta área é simbolizada tanto por games específicos como por estabelecimentos que ajudam a consolidar o meio.

A Ludus Luderia, por exemplo, foi criada em 2007 e permite que as pessoas se divirtam com jogos de tabuleiro mesmo que não tenham noção alguma sobre o assunto. Instrutores do bar ajudam os clientes a compreenderem as regras dos jogos e a apreciarem o universo que muitos deles não tem acesso ou que funcionam melhor se forem apreciados em grandes grupos.

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A Ludus Luderia é o antro dos jogos de tabuleiro

Há também fabricantes de games de tabuleiros nacionais, como a Galapagos Jogos que existe desde 2010. Muito mais tradicional do que ela é a Copag, que existe desde 1908 – há 107 anos -, e cria cartas de baralho. Hoje em dia, esta empresa faz produtos customizados e diferentes para o mercado.

Outro nome importante dentro do meio de jogos não-digitais é do professor Vicente Martin Mastrocola, conhecido pelo apelido Vince Vader na internet. Ele criou um jogo de cartas chamado Haunted Cards, voltado para o público infantil, que foi divulgado em seu livro Ludificador (2012). Depois, ele trabalhou com OKTO, outro card game que teve 200 cópias e foi comercializado inteiramente por vendas online em 2013.

O futuro dos jogos de tabuleiro e de cartas no país está nas internet. Grupos públicos de Facebook como BoardGames Brasil reúnem mais de 10 mil pessoas entre colecionadores e desenvolvedores na área. É um produto trabalhoso de se fabricar, mas que certamente está ligado à produção de jogos digitais.

As empresas brasileiras do segmento pensam em apostar nos games analógicos para, justamente, aperfeiçoarem seus videogames eletrônicos.