Napoleão

Por dentro da mente de Napoleão

Napoleão, de Emil Ludwig, escritor e historiador alemão, é uma biografia extraordinária. Lançada em 1924, é, para muitos, o melhor estudo jamais realizado sobre Napoleão. Ludwig (1881-1948) foi um inovador no gênero das biografias. Ele se autodefinia  como um “retratista”,  e dava um grande destaque ao perfil psicológico das personalidades sobre as quais escreveu, de Napoleão a Jesus, Goethe, Bismarck e Lincoln.

É um livro fora do prelo. Encontrei um exemplar num de meus pontos favoritos de Londres, um sebo perto da estação de Putney Bridge. É um livro prestigiado entre os frequentadores de sebo. Paguei 20 libras, ou 60 reais, mais do que qualquer livro novo que comprei em Londres. São 700 páginas em geral eletrizantes, como foi a vida de Napoleão, um general da estatura de Alexandre e César, um homem tão único que faz parecer pequenos inimigos que o bateram, como os britânicos Nelson (Trafalgar) e Wellington (Waterloo).

Napoleão (1769-1821), como mostra Ludwig, era um idealista que, paradoxalmente, não acreditava que os homens fossem movidos por ideais. Para ele, o motor da humanidade são os interesses pessoais, em geral baixos e vis, e não ideais nobres.

Covardia, avareza, cupidez, vaidade, desejo de glória governam as pessoas, na visão napoleônica. Como ninguém gosta de se ver dessa maneira, frequentemente inventamos razões sublimes para nossos atos pouco elevados. É como uma questão de sobrevivência moral.

Era essa a visão napoleônica das pessoas. Por isso, ele remunerava muito bem seus marechais. Tinha aí uma generosidade “oriental”, como escreveu Ludwig. Os soldados de Napoleão ficavam ricos rapidamente. Muito mais que ele próprio, que jamais se afastou demasiadamente do modelo frugal que comandava sua família de origem simples da Córsega. “Tenho uma casa na cidade e uma no campo, e uma renda entre 80 mil e 100 mil francos por ano”, escreveu ele em seu apogeu. “Do que mais preciso?”

Napoleão entendia que os grandes homens, os que mudam a humanidade, são aqueles que influenciam não “os príncipes”, mas as multidões. Influenciar apenas líderes é fazer “intriga”, com resultados de “segunda classe”, na visão napoleônica. Influenciar as massas é “mudar a face do mundo”.

Napoleão, o general misantropo, mudou a face do mundo.

Ele estava longe de ser apenas um gênio da espada. Napoleão foi quem primeiro enxergou uma Europa integrada e as enormes vantagens que decorreriam disso. Ele sonhava com os “Estados Unidos da Europa”, com uma só moeda, uma só língua e sem fronteiras internas. “Chegará o dia em que todos perceberão as virtudes disso”, disse ele.

Batido enfim em Waterloo, quando a Europa praticamente inteira se juntou para enfrentá-lo, ele recusou o caminho fácil que, depois, seria trilhado por Hitler: o suicídio. Considerava “covardia”, e até o fim foi fiel a seu pragmatismo expresso nesta frase: “Mais vale um tocador de bumbo vivo do que um imperador morto”.

O homem prático se manifesta também aqui: “É sábio e político marchar ao lado do curso irresistível dos acontecimentos”. Ironicamente, poucas pessoas desafiaram tanto e com tamanha taxa de sucesso este “curso irresistível” como ele próprio, Napoleão.