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Titanic Thompson, o homem que apostava em tudo

Pedro Nogueira
Pedro Nogueira Editor-Chefe

O pôquer, um século atrás, era um jogo completamente diferente daquele que conhecemos hoje. Se o Texas Hold’em e o Omaha são agora, de longe, as modalidades mais populares, naquela época jogava-se o 5 Card Draw e o 5 Card Stud – conhecidos no Brasil como ”Pôquer Fechado” e “Stick Pôquer”, respectivamente.

E sabe aquelas situações em que alguém aposta 70 reais, você só tem 50 reais e, então, vai para o all in? Esqueça isso. Muitas mesas adotavam as western rules, as “regras do oeste”. Ou seja, o cacife não limitava-se às fichas que cada jogador possuía em cima da mesa, mas sim à profundidade de seus bolsos. O sujeito apostou 3.000 reais e você só tem 1.000 reais em ficha? Corra ao caixa eletrônico ou ponha a chave da moto na mesa. Senão, vai ter que largar as cartas. Mesmo que sejam quatro ases.

Foi neste período em que viveu o americano Alvin Clarence Thomas (1892-1974), mais conhecido pelo seu nome artístico de Titanic Thompson, um dos maiores apostadores e vigaristas da história dos Estados Unidos.

A origem de seu apelido é interessante. Na primavera de 1912, mesmo ano em que o transatlântico Titanic afundou, matando 1 517 pessoas, Alvin estava jogando sinuca num clube em Joplin, Missouri. Depois de ganhar 500 dólares de um parceiro chamado Snow Clark – valor que hoje seria o equivalente a 11 mil dólares – Alvin deu a ele a chance de recuperar o dinheiro.

“Apostei 500 dólares que eu poderia pular a mesa de sinuca sem enconstar nela”, escreveu Alvin numa crônica publicada na revista Sports Illustrated, em 1972. “Coloquei um velho colchão do outro lado da mesa, corri e mergulhei. Enquanto eu contava o dinheiro, alguém perguntou a Clark qual era o meu nome. Deve ser Titanic, porque ele afunda todo mundo, Clark respondeu. Desde então, ficou Titanic.”

Ele era louco por carros velozes

Segundo o seu biógrafo, Kevin Cook, autor de Titanic Thompson: O Homem que Apostava em Tudo, ele ganhou e perdeu milhões de dólares jogando cartas, dados, sinuca e golfe. Quando Titanic derrotava alguém no golfe, oferecia ao perdedor a chance de recuperar o seu dinheiro numa revanche – desta vez, Titanic jogando com a mão esquerda. Só que ele era ambidestro. “Ele gostava de suas mulheres jovens e bonitas, seus carros grandes e velozes, seus patos ricos e ingênuos”, escreveu Cook.

O pôquer era uma das atividades preferidas de Titanic. Segundo Cook, ele calculava como um computador as probabilidades do jogo. Além disso, “trapaceava e marcava cartas com uma habilidade inacreditável”. Gângsters como Al Capone e Arnold Rothstein, e grandes jogadores como Doyle Brunson, Johnny Moss e Amarillo Slim, foram algumas das personalidades que se sentaram à mesa com Titanic.

Em 1928, ele esteve envolvido no high stakes que resultaria na morte de Arnold Rothstein, então o chefe do crime de Nova York. Segundo a lenda, Rothstein perdeu 320 mil dólares numa maratona de três dias de jogo. (Em valores atualizados, cerca de 4 milhões de dólares.) No entanto, recusou-se a pagar a dívida, alegando que o jogo fora armado. E bem, realmente, fora por Titanic e seus comparsas. Mas isso não interessava. A honra da época ditava que, se você fosse roubado no jogo e não pegasse o vigarista no ato, então era um pato e merecia perder mesmo. Pouco tempo depois, Rothstein seria assassinado pela dívida.

A passagem mais interessante do encontro entre Titanic e Al Capone – o mais temido criminoso dos Estados Unidos naquele momento – deu-se também após um jogo de pôquer, na década de 1920. Ao sair de uma partida, já de manhã, os dois caminhavam juntos em direção ao carro de “Scarface” Al. Quando passaram por uma barraca de frutas, Titanic comprou um limão e veio com a proposta: “Aposto 500 dólares que consigo arremessar um limão por cima do telhado daquele hotel.” Al Capone aceitou o desafio.

“Mas espere um segundo”, disse o gângster. Ele comprou um novo limão, espremeu e, sorrindo, passou-o a Titanic. “Jogue este.” Titanic não esperava por isso. O limão que ele comprara estava recheado de balas de revólver; combinara o golpe com o quitandeiro no dia anterior. A solução foi improvisar. Titanic tomou distância, correu e arremessou. Mas não jogou o limão espremido de Al Capone – o qual ficou segurando na palma da sua grande mão – e sim o pesado.

Enquanto os dois observavam o limão voar por cima do hotel, Al Capone assobiou e disse: “Você é um filho da mãe versátil…” Abriu a carteira, então, e passou os 500 dólares justos para Titanic.

Até mesmo Al Capone foi vítima dele

Voltando um pouco no tempo, Titanic deixou sua casa no sul de Missouri aos 16 anos com apenas um dólar no bolso, e passou a juventude afiando sua habilidade de dar golpes. Às vezes, ele ficava um final de semana seguido inteiro dentro de um quarto de hotel praticando um corte específico no baralho ou um jogar de dados. Alguns dos truques mais interessantes que ele praticou durante a sua carreira de road gambler:

1# Tacada de golfe de 1 quilômetro: Certa vez ao chegar numa cidade, Titanic apostou com vários gamblers locais que poderia fazer uma tacada de golfe de 500 jardas, quase um quilômetro. Nem mesmo os campeões do esporte na época conseguiam isso. Obviamente ele arrumou vários fregueses. Então disse: “Mas preciso de algumas semanas para me concentrar”. Quando o inverno chegou, Titanic avisou que a hora havia chegado. Subiu numa colina, treinou o swing e mandou a bola em cima de um rio congelado. Conforme ela ia descendo em direção ao oceano, Titanic ia coletando seus ganhos.

2# Boxe contra um campeão: Ao avistar um campeão de boxe num hotel, Titanic fez o desafio: “Você é uma farsa. Aposto que não consegue me nocautear nem mesmo se ficarmos junto em cima de uma folha de jornal.” Com o orgulho ferido — e vendo a possibilidade de um dinheiro fácil — o esportista aceitou o duelo. Titanic então estendeu o jornal no chão, no vão de uma porta, e a fechou entre eles. Mais uma para o nosso querido apostador.

3# Caminhão de frutas: Passeando por uma cidade, Titanic avistou um caminhão cheio de frutas. Então abordou seu motorista e perguntou quantas unidades havia nele. Em seguido, Titanic deu uma generosa gorjeta para o homem passar algumas horas depois na frente de um endereço específico. Tudo combinado, Titanic foi para lá e reuniu despretensiosamente alguns amigos à toa numa mesa virada para a rua. Quando o caminhão passou, ele disse: “Aposto que consigo acertar, com uma pequena margem de erro, quantas frutas tem dentro da caçamba.” Batata.

4# A placa da cidade: Numa certa noite, Titanic deslocou em alguns quilômetros uma placa de estrada que dava a distância para a próxima cidade. No dia seguindo, foi viajar com um colega e, fingindo que estava dormindo ao passarem pela placa, acordou perguntando: “Quantos quilômetros falta para chegarmos?” O outro disse “X”. E então Titanic falou: “Imagina, aposto que pelo menos Y”. Seu amigo, que acabara de ver a placa estadual, achou que era uma ótima chance de forrar o bolso. Eles fecharam o valor e contaram a distância no hodômetro do carro. O resultado da história você já imagina.

Com todas essas artimanhas, Titanic obviamente às vezes tinha dificuldades em coletar os seus ganhos. Por isso andava sempre com uma Colt .45, para garantir que ninguém o passasse para trás. Como consequência disso, acabou matando 5 homens durante a vida. “Mas todos mereceram”, afirmaria depois ele, que nunca foi preso pelos crimes. Cinco também foi o número de mulheres que ele desposou, sendo que todas eram menores do que 20 anos no dia do casamento.

Titanic teve uma vida surpreendentemente longa para alguém do seu ramo: morreu aos 81 anos, falido, após passar seus meses finais num asilo próximo de Dallas. A razão de sua derrocada, assim como de muitos apostadores do último século, foi a corrida de cavalo, onde perdeu os milhões de dólares que fez apostando nas cartas, dados, golfe, sinuca e tudo mais em que fosse possível colocar dinheiro. E apesar de suas falhas morais ou desvios de caráter, ele tornou-se uma figura única, lendária e admirada nos Estados Unidos.