Consumo inteligente | Maestria financeira #2

Olá, senhores! Este é o segundo capítulo de uma série de 6 artigos que André Massaro, um dos maiores educadores financeiros do Brasil, está produzindo para ajudar os leitores do El Hombre a conquistarem a tão sonhada independência financeira. Fique ligado para não perder nenhum capítulo desta série.

***

Por ANDRÉ MASSARO

No primeiro capítulo desta série, nós vimos as fontes do dinheiro (que é “de onde o dinheiro vem”). Neste capítulo, falaremos sobre o consumo (que é “para onde o dinheiro vai”).

O consumo é, de longe, o assunto mais importante das finanças pessoais. E isso por uma razão muito simples: TODOS nós, sem exceção, somos consumidores.

Para ser um consumidor, basta apenas uma coisa: estar vivo.

Até mesmo um bebê que acabou de nascer, em alguma maternidade do mundo, é um consumidor. Ele pode não estar pagando pelo próprio consumo, mas alguém está.

Mesmo uma pessoa hoje sem dinheiro, em algum momento, consome.

O consumo é uma das poucas coisas “verdadeiramente democráticas” no mundo: somos todos consumidores (ainda que uns consumam mais que os outros). E é, talvez, o único tema “universal” no mundo das finanças pessoais: nem todos serão investidores; nem todos farão planejamento financeiro; nem todos se prepararão para a aposentadoria… Mas todos consomem e continuarão consumindo no futuro.

O consumo inteligente é o consumo equilibrado

A segunda razão pela qual o consumo é o assunto mais importante das finanças pessoais é que a maioria das nossas “encrencas financeiras” está, de alguma forma, associada a ele.

O grande problema do consumo é uma questão puramente matemática: se gastarmos mais do que a gente ganha, vai faltar dinheiro. E se faltar dinheiro, o resultado é dívidas, desconforto e angústia.

Por outro lado, se você viver de uma forma exageradamente frugal, não consumindo nada além do necessário para sua subsistência, vai viver de forma muito limitada e poderá, em algum momento, ter a sensação de que “jogou a vida fora”.

Por isso, o “ponto ótimo” está em algum lugar no meio, onde você vai aproveitar a vida, mas, ao mesmo tempo, vai fazer sobrar dinheiro e não vai se colocar em uma situação de risco, vivendo no limite das suas finanças (ou mesmo além desse limite, em uma situação de endividamento crônico).

Então, se você souber consumir de forma inteligente, já vai se “blindar” contra a maioria dos problemas financeiros que afligem as pessoas.

Por que usamos e guardamos dinheiro?

Nós usamos dinheiro para consumir. Simples assim.

E guardamos e investimos dinheiro para… consumir! A poupança e os investimentos que fazemos não são nada mais que um sacrifício de seu consumo no momento presente, para assegurar sua capacidade de consumo no futuro.

Ou seja, nós deixamos de consumir agora tudo aquilo que poderíamos (poupamos recursos), simplesmente para mantermos nossa capacidade de consumo nos períodos de “vacas magras”. Ou, então, para formarmos patrimônio e atingirmos aquela situação em que não precisamos mais trabalhar para podermos viver e consumir (renda passiva)

Ninguém guarda dinheiro apenas “por guardar”.

Consumo e sentimento de culpa

O consumo pode nos causar culpa. Algumas pessoas compram de forma compulsiva, ou caem em armadilhas de consumo por impulso, e se sentem terrivelmente culpadas com isso.

Algumas pessoas gostam, de forma deliberada ou não, de alimentar a culpa dos outros. Na minha área (educação financeira), ainda tem gente que insiste em usar aqueles exemplos ingênuos do tipo: “Se você tivesse economizado um cafezinho por dia nos últimos dez anos, estaria rico”. (Dica: você NÃO estaria rico – aliás, a não ser que esse café fosse servido no Plaza Athénée de Paris, você não estaria NEM PERTO de estar rico fazendo isso.)

Outros gostam de apontar o dedo e fazer julgamentos sobre o nosso consumo.

Então, se alguma pessoa tentar te fazer sentir culpado pelo seu consumo, não entre na conversa. Porém, se você se sente REALMENTE culpado por consumir (independentemente do que outras pessoas falam), isso pode ser um problema mais sério.

O consumismo é o “consumo como estilo de vida” ou “viver para consumir”. Isso é complicado, pois pode, em algum momento, te levar a uma situação de endividamento e falência pessoal, entre outras coisas. Inclusive, quando em altos níveis de descontrole, o consumismo passa a ser uma patologia mental, chamada Oniomania (sim, consumo descontrolado é uma doença).

Se sentir que for o caso, busque ajuda profissional especializada… Para ontem!

Consumo e a sua identidade pessoal

Mais ou menos no começo do Século XX, surgiu aquilo que se chama de “Moderna Sociedade de Consumo”. Não vamos entrar em detalhes sobre esse acontecimento (afinal, isto aqui não é um tratado acadêmico), mas, neste momento, vamos nos limitar a dizer que foi mais ou menos nessa época que se consolidou o conceito de “consumo como formador de identidade pessoal”.

Isso significa que, no mundo atual, em parte, a gente “é aquilo que consome”. A pessoa é definida por suas decisões do consumo.

Não se deve desprezar o poder do consumo na formação da identidade, mas é preciso que VOCÊ esteja no controle dessa formação de identidade.

Inclusive, nunca é demais lembrar: você está num portal de moda e estilo de vida… Aqui, você verá dicas e sugestões de como se vestir, como se comportar e lugares para frequentar, entre outras coisas.

Se você usar essas dicas e recomendações A SEU FAVOR, construindo e reforçando a identidade que você quer ter, tudo bem… Isso é a atitude de um consumidor inteligente! Porém, se você se limitar a seguir essas recomendações como se fosse uma espécie de “código de conduta”, na linha “devo usar isso porque é o que as pessoas bacanas estão usando”, você estará entregando a sua identidade pessoal nas mãos de outras pessoas.

Então, defina (ou entenda) qual é a sua identidade… E consuma conforme a sua identidade.

Viva sua vida nos seus termos.

As armadilhas do consumo

O mundo é uma grande rede interconectada, formada por pessoas que estão, o tempo todo, tentando vender algo ou tentando persuadir alguém. Eu estou, neste momento, tentando te persuadir com os argumentos deste artigo. Você, com certeza, já tentou persuadir alguém hoje, ou ainda vai tentar persuadir.

Nós estamos, constantemente, sendo bombardeados por propagandas e mensagens persuasivas, tentando nos vender algo. Se você entrar numa loja, um vendedor virá em sua direção como um míssil teleguiado. Se entrar em um site de e-commerce, será perseguido pelo remarketing daquele produto que viu até ter pesadelos.

A linguagem publicitária é feita para te convencer de que “te falta algo”. Se você acreditar em tudo o que te falam e nas propagandas que assiste, acabará se convencendo, em algum momento, de que é um ser humano defeituoso e incompleto. E que só vai se tornar uma pessoa “plena” se adquirir aquilo que está sendo anunciado…

Um consumidor inteligente precisa saber como “decodificar” essas mensagens persuasivas, para não cair nas armadilhas que elas escondem. Esse tipo de mensagem tem, como principal objetivo, te convencer de que aquilo que é um “desejo” é, na verdade, uma “necessidade”.

E existem inúmeras armadilhas de comunicação que tentam forçar uma decisão de consumo, como a criação de falsas urgências (“é o último par” ou “o preço vai aumentar amanhã”), apelos emocionais ou associações ilógicas (aquilo que eu chamo de “efeito margarina” – afinal, qual é a associação entre uma margarina e uma família feliz?).

Uma de minhas ferramentas mentais preferidas para “desmontar” essas armadilhas é a chamada “Teoria da Inoculação”, criada nos anos 50, nos EUA, para evitar que militares capturados em guerras sejam vítimas de tentativas de lavagem cerebral.

Inclusive, fica a sugestão da leitura de um artigo meu, explicando o que é (e como aplicar) a Teoria da Inoculação em sua vida.

Como se tornar, enfim, um consumidor inteligente?

Ultimamente, tem se falado muito em “consumo consciente”. O consumidor consciente é aquele consumidor que sempre procura avaliar o impacto de seu consumo, seja nas suas próprias finanças ou no ambiente em que vive.

O conceito de “consumidor inteligente”, que eu proponho aqui, está bastante relacionado com essa coisa mais ampla do “consumo consciente”. Inclusive, aqui vai mais uma sugestão de leitura complementar (de minha autoria) sobre como ser um consumidor consciente.

Mas, neste artigo, vamos trabalhar com um escopo um pouco mais limitado, e definir o consumidor inteligente como aquele consumidor que:

  • Vive conforme seus próprios termos;
  • Eleva seu padrão de consumo de forma sustentável.

Viva conforme seus próprios termos

Você tem “desejos de consumo”? Se você for uma pessoa normal, provavelmente deve ter desejos de consumo – alguns já realizados e outros não.

Não há nada de mal em ter desejos de consumo. Aliás, pelo contrário, eles podem servir como uma excelente ferramenta de motivação, nos levando a progredir, profissionalmente e pessoalmente.

Mas, agora, eu quero que você se pergunte: até que ponto seus desejos de consumo são, realmente, seus?

Você REALMENTE quer aquelas coisas? Ou está seguindo algum código que foi “enfiado na sua cabeça” por alguém?

Aquele restaurante caro que você tem ido… Você realmente gosta dali? Ou está indo lá porque, de alguma forma, se convenceu de que “pessoas bacanas devem ir naquele lugar”? Aquelas roupas caras que você quer comprar… Você realmente tem prazer em usar aquilo? Ou está comprando porque as viu em algum filme com seu ator favorito e rolou um “efeito margarina”?

Se você chegar à conclusão de que aquele desejo é, realmente, SEU – uma coisa para o SEU prazer e bem estar (e não para seguir códigos criados por outras pessoas) – então, assuma o desejo e se esforce para realizá-lo.

Defina os termos de sua vida, defina sua identidade e viva conforme suas regras. Não consuma NADA, simplesmente, porque alguém ou algo (um amigo, um parente, um programa de televisão) te convenceu de que você “deveria” querer aquilo.

Se você fizer esse exercício mental, você verá que grande parte de seus desejos de consumo não são, verdadeiramente, seus.

E, ao parar de gastar dinheiro para satisfazer expectativas e regras que não são suas, você vai poder aproveitar melhor os seus recursos em coisas que te dão mais prazer e bem estar… E, se bobear, vai até sobrar mais dinheiro!

Eleve seu padrão de consumo de forma sustentável

Com o tempo, é natural que você queira elevar seu padrão de consumo. Nossos gostos vão se refinando e a gente vai mudando

Porém, um consumidor inteligente deve fazer isso de forma SUSTENTÁVEL.

Não estou falando, aqui, em sustentável do ponto de vista ambiental (que também é importante), mas, em particular, do ponto de vista ECONÔMICO.

Isso significa que, para o dinheiro sair, ele precisa entrar (e, talvez, seja um momento interessante para revisitar o primeiro artigo desta série)…

Para elevar seu padrão de consumo, você precisa elevar seu nível de renda… “Ganhar mais” é a única forma de elevar, de forma sustentável, o padrão de consumo. A outra forma de elevar o padrão de consumo é gastando o que não tem e se endividando. Essa é a forma não sustentável de elevar o padrão de vida – e isso é o que temos que evitar.

Aumentando o seu “QI de consumidor”

Fazendo essas duas coisas, você se tornará um consumidor cada vez mais inteligente, satisfeito com suas decisões de consumo e, mais importante, terá uma situação financeira sólida e organizada, pois, como já foi mencionado no início deste artigo, o consumo “não inteligente” é responsável por grande parte dos “perrengues financeiros” das pessoas.

“Viver conforme seus termos” é algo que não vai fazer bem, apenas, às suas finanças. Vai fazer bem a você como um todo. Você vai se sentir uma pessoa mais autônoma, mais completa, mais feliz e mais livre.

E lembre-se que todo consumo, para ser economicamente sustentável, precisa ser apoiado na renda. Quanto maior sua renda, mais você poderá elevar, de forma sustentável, seu padrão de consumo.

***

André Massaro é autor, consultor, professor e palestrante especializado em Finanças, Investimentos, Economia e Tomada de Decisões. É um dos mais conhecidos e experientes educadores financeiros do Brasil e, mais que isso, é alguém que acredita que o dinheiro não é tudo, mas a liberdade financeira é o caminho para a liberdade pessoal. Site: www.andremassaro.com.br