Seu rosto ficou desfigurado após a batida

“Mais 10 segundos em meu carro e eu teria morrido”

VIENNA –  Niki Lauda tem uma forma um tanto espontânea de viver a vida. Provavelmente porque o lendário piloto austríaco sabe que tem sorte de ter sobrevivido a um terrível acidente na pista de Nürburgring em 1976. A batida cobriu a pista de chamas, onde Lauda se encontrava inconsciente no que pareceu uma eternidade até ser tirado de seu carro por outro piloto, Arthur Merzario.

“Mais 10 segundos em meu carro e eu teria morrido”, lembra Lauda ao El Hombre, enquanto toma um café em sua suíte em um hotel de Vienna. Ele tem dado entrevistas recentemente para promover o lançamento do filme Rush, que foca na rivalidade entre ele e o piloto britânico James Hunt enquanto lutavam pelo título da Fórmula 1 em 1976. Dirigido por Ron Howard, o filme estrela o ator alemão Daniel Brühl (Bastardos Inglórios, Edukators) como Lauda e o australiano Chris Hemsworth como Hunt, entrevistado também pelo El Hombre.

“Lauda e Hunt foram rock stars das corridas: dois profissionais no ápice de suas carreiras”, observa Howard. “Era uma época que sexo era seguro e dirigir era perigoso”. Os dois se tornaram bons amigos com o passar das temporadas e eram contrastantes como pilotos e como pessoas. Lauda era pragmático, disciplinado e rigoroso enquanto Hunt era um beberrão, mulherengo e as vezes irresponsável.

A morte era uma possibilidade real e uma ameaça no tempo deles. Fórmula 1 era o esporte mais perigoso no mundo e a cada temporada havia pilotos perdendo suas vidas. No meio da temporada de 76, Lauda chegou perto de ser mais uma vítima quando perdeu o controle de seu carro e bateu na pista de Nürburgring, reconhecidamente perigosa.

As chamas que tomaram conta de seu carro derreteu sua orelha direita e testa e deixou seu rosto severamente machucado. Ele passaria os próximos dias em coma no hospital com problemas no pulmão por conta da fumaça tóxica que ele respirou enquanto estava inconsciente em seu carro em chamas.

Quando chegou ao hospital, os médicos não eram otimistas em relação às suas chances de sobreviver. “Um padre chegou a vir rezar por mim”, diz Lauda. Mas ele superou a batida e voltou para o Grand Prix da Itália, apenas seis semanas depois, apesar de seu estado. Em defesa do título, Lauda liderava o campeonato por conta de todas as corridas que tinha ganhado anteriormente e estava determinado a lutar pelo título.

“A equipe da Ferrari sempre me questionou se queria voltar, mas sempre pensei que sim. Queria ver se conseguiria. Não fiquei surpreso  de ter sofrido um acidente. Por toda minha carreira, vi pessoas morrendo na minha frente”.

Essa é a essência da mentalidade pragmática de Lauda. Apesar de quase morrer e de ter sido terrivelmente desfigurado, o piloto austríaco voltou às pistas, com o rosto cheio de curativos, apenas 6 semanas mais tarde, no Grand Prix de Monza. Suas queimaduras ainda não tinham sido completamente curadas e o estado de seu rosto fazia muitos pilotos desviarem o olhar chocados. Lauda também precisou de uma cirurgia plástica para poder fechar os olhos. Mas estava determinado a defender seu título e ainda estava a frente na classificação, no que levaria a um final de temporada emocionante no Grand Prix de Tóquio.

A corrida final foi disputada durante chuva e muitas pessoas acreditavam que devia ser cancelada. No fim, Bernie Ecclestone e os organizadores decidiram seguir o planejamento sabendo que havia uma ansiedade gigante do público que assistiria na TV uma briga entre Lauda e Hunt. Hunt estava apenas três pontos atrás de Lauda e tudo seria decidido na última corrida. Lauda acabou tendo que sair da corrida na 2a volta e Hunt terminaria em terceiro, levando ao seu primeiro e único título da Fórmula 1.

Nessa entrevista exclusiva, Niki Lauda discute como não permitiu que seu acidente o impedisse de continuar correndo.

Nikki, como foi voltar a correr apenas 6 semanas depois de quase morrer?

Depois do acidente as pessoas olhavam para mim e estavam chocadas. Aquilo me deixou incomodado. Achei que elas não estavam sendo educadas e tentando esconder suas reações negativas à minha aparência. Quando assisti ao filme pude ver a história por outro ângulo. Me fez entender porque as pessoas estavam chocadas.

Qual foi a sua reação?

Eu aceitei minha situação, minha aparência, deixei de pensar nisso e tentei seguir em frente… Mas minha mulher (Marlene, de quem se divorciou em 1991) quase desmaiou quando me viu pela primeira vez, então eu sabia que não devia estar bem. Eu me pergunte, “Será que estou tão mal assim?”. Com o passar do tempo, as cicatrizes foram sumindo e… bom, me acostumei.

Chegou a considerar fazer uma cirurgia plástica para corrigir as cicatrizes?

Não. Apenas tive que fazer uma cirurgia pra melhorar minha visão. Cirurgias plásticas são chatas e caras e a única coisa que fariam seria me dar um rosto novo.  Precisei da plástica para meu olho voltar a funcionar normalmente, e contanto que tudo esteja funcionando bem, não me importo com o resto. Você tem que aceitar. Você não consegue imaginar como seria até acontecer com você. Quando você está nessa situação acaba pensando de forma diferente, buscando uma forma de lidar com isso, e quando acha não se importa mais.

Algum cirurgião chegou a te procurar nos meses ou até anos depois do acidente?

Sempre me ofereceram procedimentos. Olha isso aqui (ele mostra o lado de seu rosto). Isso foi feito pelo Ivo Pitanguy, no Brasil. Ele era o cirurgião plástico mais famoso do mundo na época. Mas ele queria fazer tudo, e quando disse que não, me perguntou se era louco.

E qual foi o seu motivo?

Eu não gosto do visual de cirurgia plástica. O que você acha de todas essas mulheres estúpidas que fazem o tempo inteiro? Eu acho horrível. As pessoas conseguem ver facilmente que é resultado de uma cirurgia. Olhe esse monte de mulheres que faz os lábios e toda aquela merda (ele imita o beiço). Odeio porque isso se torna parte da sua personalidade.

Você se pergunta por que as mulheres resolvem fazer isso?

Eu odeio cirurgias plásticas. Você tem que ter personalidade o suficiente para superar toda essa besteira sobre o ideal estético para encontrar forças e se amar do jeito que é. Quando as mulheres fazem cirurgias plásticas significa que elas não suportam quem quer que elas sejam. Muitas vezes pessoas se perguntaram porque eu estava daquele jeito. Pelo menos posso dizer que tive um acidente. A ideia de pessoas remodelando seus rostos, sem sequer terem sofrido um acidente… Não consigo entender.

Vamos falar de Rush. O que você achou de Daniel Brühl te interpretando no filme?

Fiquei impressionado. Fez um ótimo trabalho. Ele fala inglês melhor do que eu. Ele veio a Vienna me conhecer. Também o levei para o Grand Prix do Brasil alguns anos atrás. Gosto dele. Perguntei o que ele achou difícil. Ele disse que por muita gente ter me visto na TV, dando entrevistas, todos sabem como eu falo, e por isso ficava difícil ser perfeito.

Como estava sua cabeça quando foi para a corrida de Toquio?

Eu ainda estava na frente. Tinha chovido a semana inteira de uma forma inacreditável, quando a corrida começou estava muito perigoso pilotar. Então desisti depois de uma volta. James terminou em terceiro e venceu o título por um ponto, o que foi bom pra ele. Tive sorte de ter sobrevivido a um acidente e optei por não arriscar minha vida de novo.

Como é quando você olha para trás e pensa nos tempos de corrida?

Naquele tempo correr era uma luta para sobreviver. Você tinha que ir até o limite sem permitir cometer erros. Tive muitas experiências positivas e negativas. Não sinto mais medo. Também acho que era menos carismático. Não sei por que não sinto mais medo. Sou muito seguro. Fui criado em uma família bem educada na Áustria. Sempre tive uma personalidade bem estável. Aí passei por algumas coisas ruins, como meu acidente, o que me ensinou a ser mais forte… sempre consegui aprender com minhas experiências e seguir em frente.

Como era sua relação com James Hunt? O filme os apresenta como rivais que se tornam amigos e passam a se respeitar.

Nós éramos amigos.  Já o conhecia antes da Fórmula 1. Sempre nos cruzamos. Ele era um rapaz muito competitivo e rápido. Em muitos pontos éramos parecidos. Quando olhava nos olhos dele, sabia exatamente o que estava pensando. Tinha muito respeito por ele no circuito. Era um piloto muito solido.

Você era tão sério e pragmático como no filme? E Hunt também era um mulherengo?

Eu gostava do estilo de vida dele. Nós tínhamos muitas namoradas. Eu não era tão mau como o James, mas éramos parecidos e eu fiz muitas coisas que ele também fez. Eu não era tão rígido como no filme, apesar de ser mais disciplinado que ele. Nunca bebia antes de uma corrida. Mas com certeza bebia depois, eu precisava.

Por conta da pressão da corrida?

Cada corrida poderia ser a última. É diferente hoje, mas naquela época era mais complicado. Depois de toda corrida nós celebrávamos nossa sobrevivência e fazíamos festas. Era diferente. James era muito mais radical, e o filme enfatiza isso. Nunca tivemos rivalidade a respeito de garotas.  Com outros pilotos, eu tomaria uma cerveja e me despediria. Não era uma amizade. Com o James era diferente. O James era diferente.

O perigo era algo que fazia você querer correr mais?

Não. A Fórmula 1 se resume a saber controlar seu carro e testar seus limites. É por isso que as pessoas correm, para sentir a velocidade e testar o controle do carro. Se você fosse longe demais no meu tempo, teria se matado. Tinha que ter um equilíbrio nessa linha tênue para se manter vivo. Era a precisão e não o perigo que me interessava. Eu era mais técnico que os outros caras. Eu não queria ser mais rápido, queria entender o carro para saber exatamente como ser mais rápido. Sempre soube que o carro me faria ter sucesso ou não, e quanto mais rápido o carro, melhores minhas chances de vencer.

Em Rush, vemos você conhecendo sua primeira esposa, Marlene, depois de dar carona a ela. Isso é verdade?

Na verdade eu conheci ela numa festa mas eu cheguei a levar ela para algum lugar pouco depois e ela não me reconheceu. Ela achava que eu era um tenista.

O filme também mostra você dando carona para algumas pessoas e as matando de susto dirigindo em velocidades extremas.

Essa parte é verdade! [rs]

Você parece ser muito tranquilo e pragmático. Você é assim sempre?

Eu sou bem emotivo mas não mostro. Eu me protejo. Estou sempre exposto então tento me esconder. Eu choro facilmente assistindo um filme besta. Não sei por que, mas choro.

Quais são suas melhores lembranças de James Hunt?

Em muitas formas ele era o oposto a mim. Nós dois tentávamos vencer. É uma pena que ele não esteja aqui ao meu lado. Ele teve complicações. Ficou sobreo por 4 anos e aí teve um ataque cardíaco. Ele morreu muito cedo, muito jovem. Queria que ele estivesse aqui para ver o filme.

Existe algo que faria você voltar às corridas?

Não. Eu testei todo tipo de carro, de todas as formas possíveis. Eu quase me matei. Me aposentei. Depois voltei. Não estou mais interessado. Agora me comporto. [rs]