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Seu ódio é fruto das suas frustrações — o que fazer com isso?

Thiago Sievers
Thiago Sievers Head de Parcerias

Ontem estava assistindo ao jogo do Palmeiras quando algo ordinário aconteceu: a torcida começou a xingar o juiz. E, então, logo em seguida algo extraordinário: eu comecei a filosofar durante uma partida do Verdão.

Não que eu tenha optado por isso. Foi meio automático. De repente eu pensei: “Esses caras estão xingando o juiz mas a maioria não deve nem saber o nome do rapaz”. A ideia simplesmente pulou na minha cabeça.

E, assim, conclui rapidamente que a galera, na real, estava pouco se lixando para o árbitro. O ódio delas não era do juiz, o moço desconhecido, mas daquilo que ele representava: uma ameaça ao objetivo do seu time de vencer a partida.

Óbvio!

E, como um carro velho embalando numa descida, meu raciocínio foi se desenrolando até me levar, também em breve tempo, a uma conclusão generalizada: não é possível odiar a alguém. Isso! É impossível odiar uma pessoa.

Então, por favor, deixe-me te levar pelos meandros do meu raciocínio enferrujado para você me dizer se essa conclusão faz ou não sentido.

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Você já deve ter sentido ódio de alguém. Raiva que seja. Irritação, fúria, cólera — tanto faz. Certamente esses sentimentos já passaram pelo seu coração. Mas você já parou para perceber o porquê de estar sentindo tais emoções?

O ódio não é nada além de uma expressão violenta de uma insatisfação. A gente fica com muito ódio quando algo acontece diferente do que desejávamos. Quando somos contrariados.

Nessas situações também podemos “simplesmente” ficar tristes. A tristeza seria, então, a expressão melancólica de uma contrariedade. A resignação seria uma expressão conformada — e por aí vai.

E, voltando ao raciocínio, o ódio é a expressão agressiva.

Esse sentimento nasce de uma expectativa frustrada. A gente odeia o fato de não conseguir atingir tal objetivo.

Por exemplo: eu tenho o desejo de ficar rico. Faço um planejamento detalhado para isso e estou caminhando bem rumo ao planejado. Eis que aparece alguém na minha vida, se faz de amigo e me passa a perna, frustrando meus planos. Como consequência, eu vou sentir ódio mortal dessa pessoa.

Ou quando alguém me difama. Eu vou ter raiva porque as pessoas passarão a fazer um julgamento negativo de mim. E tudo por conta daquele indivíduo. Eu odeio ele!

Será?

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Perceba, minha raiva não é daquele ser humano — é da situação que ele me colocou. O que eu posso estar fazendo, inconscientemente, é uma transferência do sentimento de um lugar para o outro e me perceber odiando a pessoa. Mas, desculpe-me dizer, esse é um equívoco de leitura e que dificulta demais nossa busca por paz.

Concluido o raciocínio de que não odiamos pessoas, peço licença para prosseguir no texto porque muitos vão pensar: “Essa pseudo fliosofia pode ser bonitinha, mas não me serve de nada”.

Hum… Serve sim. Essa consciência traz benefícios práticos para nossas vidas.

Como? É simples! Ao considerar como objeto do ódio alguém que não seja nós mesmos, estamos transferindo a responsabilidade de nossas frustrações. Nessa ilusão, o ódio significa que vemos a outra pessoa como o pivô central de alguma infelicidade nossa.

Agora, — nessa você há de concordar comigo! — se minha felicidade está sob domínio de um outro alguém, eu estou fodido! Viverei eternamente como uma marionete. E ninguém deseja ser joguete nas mãos dos outros.

Então tratemos de mudar essa realidade.

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Ao tomar consciência de que nosso ódio nasce de nossas frustrações, fica fácil concluir que para deixar de odiar basta não criar expectativas. Ok, talvez isso não seja possível – então aprender a lidar melhor com elas já é um bom caminho.

As outras pessoas não têm o poder de originar algo em nossos sentimentos. Elas funcionam apenas como ferramentas disparadoras. Suas ações repercutem em nossa intimidade e despertam reações nossas – e se as reações são nossas, podemos fazer delas o que quisermos, oras! Basta estarmos conscientes disso, o que é uma raridade.

É engraçado pensar assim, mas geralmente funcionamos como uma máquina programada: aperta-se esse botão e gera-se a reação X; aperta-se aquele botão e gera-se a reação Y. Só que em vez de botões, reagimos com estímulos comportamentais: alguém nos estimula com um comportamento X e a reação é essa; com um comportamento Y e a reação é aquela.

Pode reparar, costumamos repetir comportamentos. São hábitos. Nós estamos engessados em nossos próprios hábitos comportamentais. Somos seres humanos, mas abrimos mão de nossas possibilidades autônomas de pensamento para viver semi-automaticamente.

E o ódio é uma manifestação disso.

A única forma de se livrar dessa prisão é refletir muito sobre nossos sentimentos. Em vez de se entregar à raiva, converse com ela, compreenda-a, questione-a. As respostas são a chave para sua liberdade.

Só que aqui, sorry, a caminhada é solitária.