Como a paixão compartilhada pelo esporte fortalece um casal

Tenho uma amiga que fala: “Odeio casal magro. Se forem atletas ainda, quero matar!”. Dei uma boa gargalhada ao ouvir seu depoimento com ar de desabafo.

Quando o casal tem o hábito de praticar exercícios juntos, fica muito mais fácil e natural ter uma rotina saudável, para desgosto das almas angustiadas que passam a vida lutando para entrar na linha.

Quando conheci meu marido vi logo que praticar exercícios era a grande paixão da sua vida. O esporte é quase uma extensão natural da sua pessoa, e o convívio com ele começou a despertar em mim mesma minha própria paixão por esporte que hibernava desde a adolescência.

Não demorou muito para que praticar exercícios passasse a ser o programa mais certo dos finais de semana. Perguntava brincando: “Quando é que vamos acordar e ficar enrolando entre a cama e o sofá, entre o jornal e o café como os casais normais?”. E, ainda falando, já estava com o tênis no pé enquanto ele respondia: “Nós não somos um casal normal”, orgulhoso por eu ter realmente entrado na dele.

Começamos na corrida e depois adicionamos o pedal para dar uma emoção extra. Por uns dois anos pedalamos e corremos todos os sábados. Era sagrado. O final de semana começava sempre e só depois disso.

A USP virou nosso templo, nosso lugar. Pedalávamos juntos, corríamos separados com a liberdade de cada um fazer seu percurso, seu ritmo, seu tempo. Tenho muito fresca a lembrança de enquanto corria saber que aquele era o melhor momento da minha semana.

Meus amigos me falavam que adorariam que suas namoradas treinassem com eles no final de semana. O inevitável desencontro na rotina passa a ser motivo de desentendimentos ou cansativas negociações, quando na sexta-feira à noite um quer dormir depois da novela e o outro se esbaldar noite afora.

Não queríamos virar triatletas, na verdade só estávamos nos divertindo. Mas depois de um tempo bateu uma vontadezinha de enfrentar um desafio.

Fizemos nosso primeiro triátlon na modalidade olímpica, que foi suficiente para nos darmos por satisfeitos por algum tempo.

Até que, de presente de aniversário, ele me deu a inscrição para o Ironman 70.3, conhecido com meio Ironman, que aconteceria pela primeira vez em Foz do Iguaçu.

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Comecei a chorar. E chorando, senti logo um frio na barriga, sabendo que agora o desafio era mesmo para valer.

Foram dezessete semanas de preparação, treinando seis dias por semana. Não demorou para que os treinos chegassem à marca de doze horas semanais.

Por diversos sábados treinamos por quatro ou cinco horas seguidas. E nem por isso tivemos um domingo de descanso sequer. Os domingos começaram com sessenta, oitenta, noventa quilômetros de pedal. Fizesse sol, fizesse chuva. Com vento, sem música, só nós e o barulho da corrente das bicicletas que às vezes me faziam entrar num processo quase que meditativo, quando não me matavam de tédio.

Por um lado este treino todo é incrível. Eu me sentia muito forte, capaz de conquistar o mundo. Meu condicionamento físico evoluiu tanto que cheguei a ter certeza de que a esteira marcava a velocidade errada.

Mas para poder treinar tanto, fizemos também diversas renúncias que denunciam o lado mais duro da coisa. Raramente sexta-feira era dia de programação. Se passava das onze horas da noite e estávamos na rua, eu já ficava tensa.

Aos sábados, depois de pedalar até oitenta quilômetros e correr dezoito, o que eu mais queria na vida era comer e dormir. Enquanto isso, sentia meu corpo consumindo bateria reserva, com perigo de desligamento sem aviso prévio.

Mas para quem pensava que o corpo enfrentaria um grande desafio, descobri que minha mente acabou sendo a maior desafiada. Precisei adaptá-la a treinar mesmo quando o corpo implorava para ficar na cama, numa manhã fria e chuvosa de domingo. Tentava em vão corromper meu marido envolvendo-o numa concha matinal, enquanto ele pulava da cama se vestindo de ciclista.

Treinei minha mente a não ceder mesmo quando achava que não ia mais conseguir – de extremo cansaço por já terem passado tantas horas, ou de tédio por ainda ter tantas horas por vir.

Passar por esta experiência como um casal foi essencial para vivermos este período em harmonia. Conciliar a rotina de treinos com a agenda social já foi difícil o suficiente. Porque em quatro meses, a vida acontece. Tem casamento, aniversário, jogo do Brasil, e nada para porque você vai fazer um triátlon.

Não foram poucas as vezes que chegamos aos eventos tomando energéticos ou muito atrasados devido à dormidas clandestinas antes de sair de casa.

Posso tranquilamente dizer que, pela minha experiência, o treino foi o grande desafio. A prova foi a gigante recompensa que tivemos a felicidade de viver juntos. E, juntos, estávamos prontos para viver uma das experiências que mais marcariam nossas vidas.

O IRONMAN 70.3

Dada a largada, os quase mil atletas partiram em direção à represa. Largamos juntos, mas logo nos primeiros minutos cada um mergulhou na sua própria jornada.

Nadar num lugar tão aberto e não ter que ir e voltar infinitas vezes acabou sendo muito mais fácil do que eu pensava. Me concentrava em seguir o mais em linha reta o possível em direção às boias que marcavam o percurso, e a encontrar espaços menos aglomerados para evitar desagradáveis chutes ou braçadas perdidas.

Assim, mal vi passar os mil e novecentos metros que inauguraram a prova.

Na transição para a bicicleta, senti que meu corpo tremia. A julgar pelos trinta graus que os termômetros já marcavam, soube que era pura adrenalina.

E enquanto as atletas entravam e saíam da tenda de troca correndo para salvar preciosos minutos de prova, minha única preocupação era manter a calma e garantir que tinha tudo o que eu precisaria para as próximas horas: gel, água, Gatorade, óculos, luvas, câmara reserva, CO2. Tudo pronto, e saí para pedalar.

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O percurso aconteceu praticamente inteiro dentro da Usina de Itaipu. Um lugar impressionante e grandioso. Acostumada a passar horas na ciclovia da Marginal Pinheiros, por alguns minutos esqueci que estava numa prova e me senti dentro de um filme.

Foram noventa quilômetros pedalando sobre a gigante barragem e vendo um cenário difícil de acreditar. Me concentrava no meu ritmo, sem me deixar distrair pelos ciclistas apressados e dosando o esforço sabendo que o calor só ia aumentar.

Durante o percurso da bicicleta, eu e meu marido nos cruzamos duas vezes. Era sempre uma surpresa deliciosa, que me dava ainda mais força para continuar.

Na transição para a corrida, percebi que tinha passado mais da metade da prova. Me sentia muito bem, e soube que dali para frente nem os trinta e quatro graus em pleno inverno me fariam parar.

E, começando a correr, me deparei com diversos atletas andando, para minha enorme surpresa. Andando. Exaustos. Derrotados pelo calor. Vencidos pela ansiedade. Agradeci por ter treinado minha cabeça. Por ter gerenciado minha euforia. Por não ter esnobado o sol.

Testemunhei, naquele momento, que atleta de verdade se faz de corpo e mente. Só, e tudo isso.

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Nos cruzamos na corrida pela última vez. Eu começando, ele já no final. E antes da metade do percurso, já tinha vontade de chorar. Perto do final comecei a ouvir a música e o locutor que narrava todos que cruzavam a linha de chegada. Tinha gente chorando, mancando, com filhos, um pouco de tudo. Parecia um sonho.

Quando cheguei, ele estava lá. E, ainda correndo, pulei em seus braços, entrelacei minhas pernas em volta dele e me senti abençoada, sabendo que estava vivendo com ele o melhor momento da minha vida.

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