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E se existisse uma pílula que substituísse o exercício físico?

Thiago Sievers
Thiago Sievers Head de Parcerias

Há poucos dias falamos sobre o Soylent, uma bebida de preparo simples que promete substituir as refeições comuns. Pessoalmente, fiquei muito interessado pela criação de Rob Rhinehart, que nos permite uma alimentação saudável sem tantos gastos de tempo e dinheiro. Agora a notícia que corre o mundo é a de que cientistas estão trabalhando numa pílula que supostamente substitui os exercícios físicos. O assunto não é de todo recente. A publicação que aconteceu no mês de julho na Nature Medicine é continuação de um estudo do ano passado realizado no mesmo Instituto de Pesquisa Scripps, na Flórida, e outros estudiosos também se dedicam ao tema.

No estudo citado os pesquisadores criaram uma substância em laboratório e a aplicaram em ratos obesos. O resultado da injeção foi um aumento na ativação de uma proteína chamada de REV-ERB, conhecida por controlar o ritmo do ciclo circadiano e do relógio biológico dos animais. Os ratinhos que sofreram a aplicação do composto perderam peso mesmo sob uma dieta gordurosa e também tiveram a taxa de colesterol reduzida. Além disso, passaram a usar mais oxigênio durante o dia e gastar 5% mais energia do que aqueles que não foram tratados com o medicamento. Um resultado curioso para quem ficou mais preguiçoso fisicamente e mais inativo, conforme constataram os cientistas através do comportamento dos ratos medicados. Mesmo com toda essa ociosidade, no entanto, seus organismos reagiram como se estivessem se exercitando, o que sugere que eles estavam em atividade mesmo inativos. Sacou?

Com o prosseguimento dos estudos, os cientistas descobriram que a proteína REV-ERB influencia positivamente na relação entre as mitocôndrias (organelas responsáveis pela produção de energia) e as células musculares – influência ocasionada igualmente pelos exercícios aeróbicos. Esse o motivo pelo qual o composto oferece resultados semelhantes àqueles gerados pelo esforço físico e passou a ser chamado de “pílula do exercício”.

Com certeza tem muita gente torcendo o nariz para a notícia, afinal o que não falta hoje são estímulos para o sedentarismo. Para que mais um? Ainda que a pílula nos presenteie com os benefícios orgânicos de uma boa pedalada (vamos supor que seja assim, já que a pesquisa precisa desenvolver bastante para chegar a um resultado concreto), ela teria enorme potencial para patrocinar a ociosidade e a diminuição progressiva de espaços como academias e – quem sabe – parques. Ou seja, que lixo.

Acontece que o projeto tem objetivos mais interessantes do que o de incentivar a pizza com futebol. Os pesquisadores vislumbram, com a substância, beneficiar aqueles que tem limitações físicas e são obrigado a se privar dos lucros que nosso corpo recolhe do esporte. Para essas pessoas bastaria uma pílula para poder estimular o trabalho das mitocôndrias nos músculos. Ou seja, que luxo.

A “pílula do exercício” parece ser como boa parte das invenções genias: carregam em si um potencial útil e outro inútil – quando não destrutivo. Ninguém ignora o desgosto que Santos Dumont teve quando descobriu que os aviões estavam sendo utilizados para carregar e despejar bombas nas cabeças de outras pessoas. É assim com a televisão, com a internet, com a música, com a inteligência. O problema não está nas criações e nem nos criadores, mas nos usuários. Portanto, seja muito bem vinda “pílula do exercício”.

O problema está no mau uso das boas invensões
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